O que passa pela cabeça dos militares?

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O general Eduardo Villas Bôas decidiu que era apropriado, nas vésperas do julgamento do recurso do processo de Lula no Supremo Tribunal Federal (STF), dar a sua opinião sobre como o resultado da decisão poderia afetar o ânimo nacional:

Primeiro vamos analisar as palavras do general. Ele faz uma pergunta para duas entidades que agrupam um monte de gente. As instituições, que na leitura imediata é o STF, vai responder hoje, mas por outro lado eu ignoro a vontade de outras instituições em responder ao general. Será que o Instituto Brasileiro de Floricultura tem uma opinião a respeito? E o Instituto Médico Legal? São muitas questões. Apesar de tudo, penso que o Instituto de Pesos e Medidas poderia ter algo a dizer, pelo menos sobre o tamanho da irresponsabilidade do senhor general e no peso que suas palavras podem ter na sociedade. Vamos aguardar novidades.

Em seguida ele fala no povo, esse grupo de pessoas que moram no mesmo lugar e que são úteis ou inúteis, de acordo com os interesses de quem chama. O dicionário explica que o povo “é um conjunto de pessoas que falam a mesma língua, têm costumes e interesses semelhantes, história e tradições comuns”. Começamos mal. Há muito tempo que os brasileiros não falam a mesma língua e quanto aos costumes, eles são tão semelhantes quanto um condomínio fechado parecer uma favela. Quanto à história comum, felizmente, ou infelizmente, estamos todos no mesmo barco; navegamos e afundamos juntos, apesar de alguns insistirem em enfiar a cabeça dos outros para baixo da água para continuarem à tona.

O general fala em Nação, com maíscula, porque a hierarquia militar e os conservadores adoram usar letras grandes quando querem exaltar valores que lhe interessam: Nação, Pátria, Família. Mas reparem que o povo continua com minúscula.

Villas Bôas continua afirmando “julgar compartilhar os anseios”, pelos vistos sem muita certeza, para em seguida falar nos “cidadãos de bem”, que normalmente é usado para falar do próprio campo, em oposição aos outros que, aí sim, podem ser chamados de “escumalha”, “ralé” ou para citar um termo querido à história do Brasil, “comunistas”.  Termina falando sobre continuar as “missões institucionais” numa linguagem vaga que pode se referir à dar um golpe ou escovar dentes de ursos de pelúcia.

O exército brasileiro possui oito comandos regionais. Veja a reação de cada um deles ao tweet do general.

  • Comando Militar da Amazônia – General Antônio Miotto

O general Miotto aprecia muito a palavra “Aço” e parece pronto para empunhar seus pontos de exclamação na defesa do Brasil.

  • Comando Militar do Norte – General Carlos Alberto Neiva Barcellos

Não se manifestou publicamente.

  • Comando Militar do Nordeste – General Artur Costa Moura

Não se manifestou publicamente.

  • Comando Militar do Oeste – General José Luís Dias Freitas

Resolveu falar apenas em nome dos que vestem fardas:

  • Comando Militar do Planalto – General Luís Carlos Pereira Gomes

Não se manifestou publicamente.

  • Comando Militar do Leste – General Walter Sousa Braga Netto

Interventor no Rio de Janeiro, Braga Netto usou a conta do Comando para também apoiar o general Villas Bôas:

  • Comando Militar do Sudeste – General Mauro César Lourena Cid

Não se manifestou publicamente.

  • Comando Militar do Sul – General Edson Leal Pujol

Não falou nada sobre a declaração de Villas Bôas mas tinha dito que as declarações do general Mourão (afastado pelas declarações de que o exército poderia intervir se o problema político não fosse resolvido) deviam ser vistas “de acordo com o contexto”.

O general Paulo Chagas, foi além e resolveu declarar que está pronto há tempos, mas pelos equipamentos que preparou, parece que ele viu o passarinho do Twitter e pensou que seria um pombo-correio.

Na escola, estudamos que os poderes no Brasil são o Executivo, o Legislativo e o Judiciário. O Executivo eleito em 2014, Dilma-Temer, foi eleito legitimamente como uma unidade. Com o tempo, o Executivo rachou e passou a ser dois, numa espécie de Ruth e Raquel da democracia. Ganhou a irmã má e Temer chegou à presidência. Temos um Executivo que é parecido com quem conhecíamos, mas não faz as mesmas coisas que imaginávamos.

O Legislativo é uma grande sopa de partidos sem ideias e de deputados sem projetos, apenas em busca de apoios e cargos num governo baseado em alianças. Dentro de um sistema político-partidário podre, a sopa é sempre indigesta.

O Judiciário nunca teve tanto protagonismo quanto hoje em dia e anda com o ego inflado típico de quem decide os rumos do país, impulsionado por uma genuína ânsia de limpeza e de combate à corrupção. Com tantos poderes esvaziados de sua ação original, quem sobra? Os militares, entidade equidistante de todos os poderes, mas ao mesmo tempo perto de todos eles e de todos nós.

O general Vilas Bôas pergunta às instituições e ao povo quem está pensando no bem do país. Engraçado ele perguntar porque o povo já respondeu à essa pergunta nas urnas há quatro anos. Resta apenas continuar ouvindo as urnas, esse megafone da democracia. Infelizmente parece que algumas vozes incomodam mais do que outras.

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Aqui, provisoriamente, o país do futuro

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Cansei de fechar os olhos aqui sentada, posso descansar e decidir amanhã? (Foto: Thiago Melo)

“Eu estou aqui para confundir, eu não estou aqui para explicar”. Chacrinha, além de balançar a pança e comandar a massa, parecia saber que acompanhar política não é fácil e seguir as atualidades judiciárias brasileiras não é tarefa para distraídos.

Para explicar aos leitores não-brasileiros ou que não acompanham de perto a macarronada política nacional vou tentar ser o mais claro possível nas próximas linhas.

Em janeiro, Lula foi condenado a mais de nove anos de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. A sua defesa recorreu, pedindo que ele não fosse preso até que todos os recursos fossem esgotados. A votação em segunda instância ocorre na próxima segunda-feira.

Pois em 2016, o STF tinha decidido que condenados poderiam cumprir pena logo depois da decisão judicial. Agora resolveram voltar a votar para saber se o que estava decidido em 2016 ficava decidido ou se decidiriam de novo.

No voto de ontem do STF, foram tomadas várias decisões, mas o que estava decidido para ser decidido ficou adiado por 13 dias. Mas três outras coisas foram votadas e decididas: que eles tem, sim, legitimidade para decidir; que eles deveriam adiar a decisão final e que deveriam suspender a sessão de ontem para continuar em outra ocasião. Resumindo, eles são ótimos para votar mas não muito bons para decidir, o que complica um pouco, sendo eles juízes.

São decisões provisórias. José Roberto de Toledo diz que o poder no Brasil é provisório desde 2013. Eu vou mais longe e digo que as coisas andam no provisório no Brasil desde a chegada de Pedro Álvares Cabral.

Na chegada das caravelas dos portugueses, uma cruz provisória foi instalada, improvisaram uma missa onde rezaram com os índios e em seguida foram colonizando como podiam, porque, afinal, não tinham dinheiro para proteger todo o território. Em seguida, após a Proclamação da República em 1889, Deodoro da Fonseca governou provisoriamente por dois anos. Depois, no século XX, Getúlio Vargas inaugurou o Governo Provisório que durou quatro anos, encerrando a primeira República em 1930. Outro exemplo são as medidas provisórias, usadas pelo presidente em situações de urgência, mas que normalmente são mais frequentes do que urgentes. E como não esquecer da CPMF (Contribuição Provisória sobre Movimentações Financeiras), que durou dez anos. A bandeira do Brasil deveria ser maior para poder escrever mais coisas: “Ordem e Progresso provisórios”. Talvez tenham dito: “escrevemos Ordem e Progresso por enquanto e depois pensamos em algo mais criativo”.

A decisão do STF em não decidir agora, simbolizada pelo ministro Marco Aurélio Mello, que dizia durante a votação, impaciente, que tinha um avião para pegar e que estava atrasado, mostra o símbolo do Brasil: vamos decidir, queremos decidir, vamos lá, é agora, está ficando tarde, fica para amanhã, não, amanha é sábado, fica para semana que vem, não, semana que vem é a semana santa e o Estado laico que me perdoe, eu não trabalho, então fica para outra semana. Pronto, decidido!

Somos supremos mesmo nessa arte de decidir.

 

Entenda a crise do Facebook – Cambridge Analytica

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Imagem: mkhmarketing

O New York Times, juntamente com os britânicos do The Observer e do Channel 4 investigaram e lançaram uma bomba para o mundo: dados de mais de 50 milhões de pessoas foram usados com fins políticos, com a permissão do Facebook.

A Cambridge Analytica é uma firma de marketing de dados de comportamento. De acordo com a própria empresa, ela coleta dados para “mudar o comportamento de um usuário”. Até aí nada de ilegal num mundo de informações compartilhadas nas redes sociais. Christopher Wylie, fonte da reportagem, trabalhou com Alexandre Nix em outra empresa e conta como a Cambridge Analytica foi formada. De acordo com Wylie, Nix conseguiu o apoio do discreto milionário Robert Mercer, um dos maiores financiadores da campanha de Donald Trump (15 milhões de dólares em doações) e de Steve Bannon, do site Breitbart News

Pequeno parêntese: Mercer é um dos fundadores da Renaissance Technologies, um fundo sigiloso que usa algoritmos para tomar decisões políticas. Ele é um dos maiores apoiadores dos republicanos e aconselhou Trump na escolha da sua equipe, incluindo o próprio Bannon e Kellyanne Conway. Mercer tinha uma grande participação financeira no site de notícias Breitbart News.

Voltamos à história. Depois da fundação da Camdridge Analytica, a empresa foi abordada pelo professor Aleksandr Kogan, da Universidade de Cambridge, que fez uma proposta irrecusável para a empresa de Nix: ele teria uma enorme base de dados de utilizadores do Facebook pescada graças a um aplicativo com as devidas permissões  de acesso daquela rede social. E não apenas das pessoas que aceitaram usar o aplicativo, mas da rede completa de amigos dessas pessoas. Contatos, likes, posts e até mensagens privadas poderiam ser resgatadas graças ao aplicativo de Kogan.

Wylie diz que a Cambridge Analytica passou a ter uma arma para controlar não só eleitores, mas a personalidade desses eleitores.

De acordo com os dados divulgados, cerca de 270 mil pessoas deram acesso aos seus dados pessoais e à sua rede de contatos, o que multiplica o número de pessoas para cerca de 50 milhões de pessoas.

Nix já tinha declarado que a sua empresa não usava dados do Facebook e que apenas “usava a plataforma para fins publicitários como qualquer outra marca anuncia no Facebook”.

A Cambridge Analytica usou os dados coletados para influenciar grupos de eleitores divulgando mensagens apelativas de acordo com o seu perfil político. Wylie diz que com o uso de algoritmos baseados nos dados coletados, a empresa sabia o tipo, o formato e o tom da mensagem a ser transmitida à determinada pessoa.

Kogan se defende dizendo que é um bode expiatório e que fez tudo na legalidade, alegando que tinha uma estreita colaboração com o Facebook, que permitiu a utilização do seu aplicativo na sua rede.

O Facebook diz que não se trata de um roubo de informações , que apertou as suas condições de privacidade desde então e que tinha a garantia da Cambridge Analytica que os dados tinham sido apagados.

No Brasil

Apesar do questionamento sobre a ética do uso de dados para influenciar eleitores, o trabalho da Cambridge Analytica não é ilegal quando usa dados abertos ou cedidos pelas pessoas com conhecimento de causa. A empresa vai trabalhar no Brasil através do seu braço criado com o publicitário André Torretta, chamado CA-Ponte.

As eleições de 2018 estão no horizonte e André deu uma entrevista para a Folha de SP em janeiro falando sobre a sua atuação. “O que estamos fazendo é sistematizar e dando o olhar político e comportamento. A grande invenção da Cambridge é botar sujeitos de comportamento como eu para olhar número. O povo coloca cientista de dados para olhar número. O cientista de dados olha o número de uma maneira não comportamental. Eu olho para o número e digo: “Bem, eu consigo através dessas informações que eu tenho achar os neuróticos do Brasil para o Bolsonaro ganhar a campanha eleitoral? Consigo”. Então, tá, o André começa a definir quem é neurótico na rede e a gente começa a traçar perfis de neuróticos e começa a falar só com os neuróticos. Essa é a lógica”.

Torreta já disse que não trabalha com extremos (“fazem mal ao negócio”) e que recusou fazer a campanha de Bolsonaro mas que não teria problemas em trabalhar com a centro-esquerda e com a centro-direita.

Europa presente nos protestos por Marielle

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Ainda no seguimento da morte de Marielle Franco, na Europa, há várias manifestações organizadas para os próximos dias. Em Portugal, há uma vigília marcada para o dia 19 de março às 18 horas na praça Camões em Lisboa. No Porto, no mesmo dia, às 18h30 a reunião vai se realizar na frente do Consulado do Brasil, junto à Rotunda da Boavista.

O Bloco de Esquerda, partido que participa da coligação de esquerda no governo socialista português junto com o Partido Comunista Português, apresentou hoje um voto de pesar na Assembleia da República pelas mortes de Marielle Franco e Anderson Pedro Gomes. Catarina Martins, deputada do Bloco afirmou que este “é um voto de solidariedade com todos os que não desistem da democracia no Brasil”.

A vereadora do PSOL, será lembrada também na França. Em Paris, a manifestação “Marielle Presente!” participará de uma outra marcha, já prevista para o próximo dia 17 de março, de protesto contra a violência do Estado. Com o lema “O Racismo do Estado Mata”, a concentração vai começar em Opéra pelas 14 horas e vai percorrer as ruas de Paris até Stalingrad, na região norte da capital francesa.

No Parlamento Europeu, deputados do Podemos espanhol condenaram a morte da vereadora brasileira, exibindo cartazes de “Marielle Presente”.  “Assassinaram uma ativista feminista dos direitos humanos, anticapitalista, uma ativista assassinada em um clima de violência política pré-eleitoral no Brasil, declarou o eurodeputado Urban Crespo.

Alguns eurodeputados pediram o fim do acordo comercial com o Mercosul, muito criticado pelos agricultores europeus, em protesto contra a violência no Brasil e exigindo uma investigação independente e exaustiva do crime.

Veja outras concentrações e protestos organizados na Europa em nome de Marielle:

Madri: Embaixada do Brasil, 20 de março, 18 horas

Munique: Karlsplatz/Stachus, 18 de março, 14 horas

Estrasburgo: Place de la République, 17 de março, 14 horas

Londres: Embaixada do Brasil, 16 de março, 18 horas

 

Intervenção social já!

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Foto: Mídia Ninja

Dezenas de pessoas morrem todos os dias nas ruas do Rio de Janeiro. Pobres, negros, favelados, anônimos na multidão de mortes, silenciosos no estardalhaço político brasileiro. A periferia, o morro, o lugar onde muita gente não quer nem chegar perto, é cenário diário de violência social, militar e psicológica. Todas as manhãs, milhares de trabalhadores desafiam as estatísticas e saem para mais uma rotina diária esperando voltar para casa sãos e salvos para jantar com a família e dormir o sono tão merecido. Crianças brincam entre os sons das balas e desviam de um pelotão militar empunhando metralhadoras. Os desafios de viver numa cidade em guerra não tem limites.

Outras pessoas, fecham os olhos para tudo ou abrem apenas para o que interessa. A violência é um absurdo, esses traficantes, a polícia faz o que pode, a droga acaba com muitas vidas, veja você, até uma vizinha da minha irmã morreu com uma bala perdida, isso tem que mudar, mas é pena que esses políticos não fazem nada. Que coisa.

Algumas outras pessoas, desafiando clichês, chutando portas, gritando mais forte, destruindo frases feitas, conversando, ouvindo, resolvem atravessar todas as dificuldades e dar corpo e voz aos anônimos e silenciosos. Levantar da cadeira, ir até à frente, pegar o microfone, e falar. Falar por quem não fala, Ser por quem não existe nos olhos do poder.

Não é uma tarefa fácil. A sociedade estabelecida fecha portas, passa a perna, rouba a voz e tenta colocar essas pessoas “no seu lugar”. Lugar este escolhido por outros, uma gaiola invisível, fechada pelo descaso e pelo esquecimento.

Marielle Franco, mulher, negra, mãe, feminista, socióloga, militante dos direitos humanos, vereadora representante de mais de 46 mil cariocas e, como ela própria se definia, “cria da favela da Maré”, foi mais longe. Nas suas funções de vereadora do RJ usou mais do que a sua experiência, usou da sua existência para reclamar e colocar os holofotes onde eles nunca estão.

Que os milhares de anônimos silenciosos encontrem força na transformação e que os protestos de indignação, também dos privilegiados, sejam a alavanca para dar cara e vida à uma existência ignorada. As comunidades do Rio de Janeiro e de todo o Brasil precisam de mais do que velas, luto e justiça. Elas se cansaram de esperar e de esperança. Elas precisam de raiva, de luta e de revolta, que fazem silêncios serem ouvidos.

Lula, o homem de todas as batalhas

 

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Lula entre Michel Temer e José Sarney em evento em 2011 (Foto: Jane de Araújo)

Em 1964, Luís Inácio da Silva tinha 18 anos. Nesse ano, ele perdeu um dedo quando trabalhava na Metalúrgica Independência em São Paulo. Na altura, seu colega de trabalho se distraiu e uma prensa fechou no seu dedo. O acidente aconteceu de madrugada e Luís Inácio foi para o hospital no dia seguinte, onde ele teve o seu dedo cortado.

As amputações fazem parte da vida de Lula. No começo da sua vida elas foram reais, anos depois, metafóricas.

A mitologia grega conta que a Hidra de Lerna era um animal fantástico, com corpo de dragão e muitas cabeças venenosas que poderiam se regenerar quando cortadas. De acordo com a mesma história, a Hidra era tão poderosa que até o seu hálito poderia ser mortal. No seu segundo trabalho, Hércules tentou cortar as suas cabeças mas elas cresciam de novo e em maior número. Decidiu então queimar o lugar do corte para que elas não reaparecessem e cortou então a última, considerada imortal, e enterrou debaixo de uma grande pedra. Dessa forma, Hércules venceu a Hidra.

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Hércules enfrenta a Hydra de Lerna (Foto: Getty Images)

Parece que chegou a hora de Lula enfrentar o seu Hércules. A Lava Jato tenta colocar uma pedra em cima de Lula e uma parte grande da direita brasileira já está comemorando a morte do animal político. Se é verdade ou não, ficaremos sabendo nos próximos meses de 2018.

Enquanto esteve no governo, Lula era odiado por uns, amado por outros. Quando teve que sair, ele apostou em Dilma Rousseff para continuar o que tinha feito nos dois mandatos para o qual foi eleito, mas alinhado num novo PT, o partido que avança, que derruba, que não para, que abraça o PMDB e qualquer partido que aceite embarcar com Lula na aventura de governo por motivos que só o sistema partidário brasileiro pode explicar.

As origens de Lula sempre foram uma pólvora para a sua carreira de líder sindical, mas durante muitos anos foram um balde de água para as suas pretensões de se tornar o presidente do Brasil. Derrotado por Fernando Collor, depois por Fernando Henrique em duas ocasiões, Lula talvez não soubesse que o Brasil ainda não estava preparado para a sua chegada. Em 2003, chegava a sua hora. Em 2007 ele reconfirmou o seu momento e foi reeleito.

Agora, depois do julgamento de Lula pelo TRF-4, com o PT mais enfraquecido do que nunca e sem ter feito um sucessor dentro dos quadros do partido, Lula se vê obrigado a jogar todas as cartas da sua popularidade para tentar reconquistar o que o PT vem perdendo ao longo da década: a imagem da esquerda combativa, social e popular. Dentro do outro partido de esquerda brasileiro, o PSOL, há quem defenda e há quem peça pela renovação, mas nomes não há.

Lindbergh Farias, senador pelo PT, fala que a candidatura vai em frente. Outros quadros do partido falam em golpe da justiça contra Lula. Todos eles acham que Lula ainda é a arma mais eficaz para evitar a vitória da direita em 2018.

Apesar da metáfora da Hidra de Lerna, quando vejo a situação de Lula prefiro pensar no filme do Monty Python, “Em Busca do Cálice Sagrado”, onde o rei Arthur encontra o Cavaleiro Negro e na luta o rei corta o braço do cavaleiro, que continua a lutar, depois corta o outro. Então o Rei Arthur começa a agradecer aos deuses pela vitória e leva com um chute na cabeça. O cavaleiro perde depois mais uma perna e ainda continua lutando com uma perna só. Ele acaba por perder a sua segunda perna e ainda sim continua querendo a luta.

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Resta saber até quando Lula pode resistir e se essa não é apenas mais uma leve ferida no político que já aprendeu com muitas derrotas e que apenas espera o momento oportuno para atacar novamente.

Trump reclamão

Depois de alguma observação, percebi que quase todos os tweets do presidente norte-americano, Donald Trump, pela sua simplicidade de vocabulário e tom reclamão, poderiam ser de um filho chateado com o tratamento da mãe ou do pai. Aqui vão alguns exemplos alterando, obviamente, o tema do tweet mas mantendo a expressão de espanto e exclamação:

Papai tá decadente

Papai teve que pedir desculpas por ter sido malvado comigo naquele dia. Agora ele tá fazendo pior ainda!

Tá todo mundo errado

Tudo o que a mamãe contou de mim é mentira, igualzinho o que a titia, a professora e o Juquinha contaram. Todo mundo sabe que pintar as paredes é legal.

Mauzão está feliz

Mamãe convidou o meu vizinho para vir brincar e ele não sabe brincar, ele é mau. Pessoas más como ele ficam felizes com isso.

Papai continua decadente e perdido

Depois do papai ter sido obrigado a pedir desculpas pra mim por ser tão malvado, o papai, esse MENTIROSO continua perdidão!

Minha mãe é que sabe

Esse pessoal que fala que eu puxo rabo de gato só prova que minha mãe tá certa e que eu sou o melhor menino do mundo.

Amigo é amigo

Parabéns para o meu amigo Chiquinho por ter contado tantas coisas legais de mim. Ele é muito mais melhor que o MENTIROSO do meu pai que só conta mentiras – todo mundo sabe!

Exagero

Mamãe, eu só comi dois brigadeiros na festa. Todos os outros 450 quem comeu foi o canário que teve uma vontade repentina de participar na minha festa…

Feio, bobo e mau

Todo mundo discutindo se eu mandei ou não todo mundo que estava brincando pra fora do meu quarto. Chamem como quiser mas eu quero que meu amigos bobos (que fazem coisas bobas) fora daqui!

Fronteiras

Querem fechar as fronteiras para os muçulmanos porque são terroristas.

Querem fechar as fronteiras para os negros porque são a maior população prisional americana.

Querem fechar as fronteiras para os desempregados porque vão roubar nosso emprego.

Querem fechar as fronteiras para os famintos porque vão comer nosso pão.

Querem fechar as fronteiras para os desesperados porque vão trazer desalento para o nosso povo.

Querem fechar as fronteiras para os cansados porque vão segurar nosso progresso.

Querem fechar as fronteiras para os pobres porque vão roubar nossa riqueza.

Querem fechar as fronteiras para os que sonham em respirar liberdade porque vão tirar nosso ar.

Querem fechar as fronteiras para os desabrigados porque vão roubar nossas casas.

Querem fechar as fronteiras para todos que representem uma ameaça.

E quando tudo estiver fechado, veremos que estamos trancados sozinhos com a nossa própria desumanidade.

Quem coloca os políticos onde eles estão?

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Foto: Roberto Stuckert Filho/PR

Você, que anda aí só partilhando textos no Facebook e indignado com os rumos da política brasileira, veja se usa a internet para algo útil e anote como o seu senador votou na PEC 55. Se por acaso não se lembra em quem votou nas últimas eleições, você provavelmente precisa colocar essa lista na sua geladeira ou na carteira para se inspirar da próxima vez que for às urnas.

“São todos ladrões”. Pode até ser. Mas se os ladrões que estão lá continuarem, quem vai se dar mal é você. E eles só ficam se você quiser.

E vigie o seu senador, o seu deputado. Vá aos sites do Senado e do Congresso para saber como ele vota, as presenças.

Na dúvida, escreva para ele. Ok, só uma pessoa enchendo o saco pode não contar, mas se todos os eleitores cobrassem as propostas do seu candidato, talvez não tivéssemos chegado onde estamos. Todos criticam o MBL, mas o grupo soube fazer pressão durante o processo de votação do impeachment da ex-presidenta Dilma Roussef.

Votar pode ser um compromisso que temos a cada quatro anos, mas ser cidadão é algo que somos, ou devíamos ser, todos os dias. Ultimamente temos a impressão que todo o brasileiro nasce com o gene da indignação. Aprendemos com os nossos pais a ler o jornal e reclamar, mas paramos por aí. Como se vivêssemos numa democracia aleatória em que os governantes são escolhidos por um programa de computador e que só nos resta aceitar a sorte e esperar que da próxima vez saia uma combinação mais favorável.

Milhares de pessoas morreram para que hoje tenhamos uma data para realmente dar a nossa opinião, mudar, fazer a diferença. Mas parece que preferimos esquecer o passado e chorar no Facebook. E chorar é mais fácil porque não implica nenhuma ação, apenas deixar as lágrimas caírem no teclado e esperar que sequem até a próxima choradeira.

Ouço frequentemente que a imprensa está aí para fiscalizar os políticos, mas esse papel é, em primeira instância, da justiça e acima de tudo, das pessoas. Aja localmente e influencie globalmente.

Aqui está a lista dos contatos dos senadores em exercício e aqui a lista dos congressistas.