O homem sem opinião

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Imagem: Colin Kinner

Não sabe ou não opina. Passou a ser o seu lema de vida. Deixou de responder pesquisas, enquetes, questionários, tudo que implicasse ter uma posição. “É a favor ou contra o uso de armas?”, “Em quem votaria para presidente?”, “Qual é a sua opinião sobre a corrupção?”. Para todas essas perguntas ele passou a ter a mesma resposta: não sei, não tenho opinião.

No princípio ficou meio confuso. Afinal, declarar que não tinha conhecimento sobre um tema que no fundo dominava poderia ser encarado como desonestidade intelectual. Depois, a sensação foi passando. Na sua conta no Facebook, onde ele diariamente dava a sua opinião em assuntos que iam da política econômica nacional à situação na Síria, passando sobre o que achava da utilização de coentro nos pratos de peixe, começou a adotar essa estratégia. Num longo texto na rede social sobre o posicionamento da Europa na crise dos refugiados, usou a caixa de comentários para escrever: “Não sei”. Numa outra postagem do Facebook sobre as declarações polêmicas de Trump declarou: “Não opino”.

Começou a variar os seus comentários entre essas duas respostas; por vezes combinava as duas: “não sei, prefiro não opinar”. Quando insistiam, ele era mais claro, mas sempre educado: “não tenho conhecimento para dar uma opinião embasada”.

O Facebook, lugar que sobrevive graças à vontade que temos em dar palpite na vida alheia, começou a tomar uma outra forma na sua vida. Acabaram-se as discussões nas caixas de comentários, fim das tretas em família sobre as eleições, uma nova era de paz e amor tomou conta da sua relação com o teclado. A sua decisão deixou de ser uma estratégia de internet e passou a ser uma filosofia de vida. Passou a fazer postagens periódicas no Twitter e nos grupos de Whatsapp pela manhã: “Bom dia amigos! Hoje não sei de nada!” ou “Amanheci sem opinião, bom resto de dia para todos”. E para sua própria surpresa, começou a ter mais “likes” na sua não-opinião do que quando gastava horas defendendo o seu ponto de vista.

Nas reuniões de condomínio, que frequentava assiduamente, passou a repetir o mesmo discurso. Os seus vizinhos no começo estranharam e depois começaram a repetir a tática. As reuniões, antes intermináveis, começaram a acabar cada vez mais cedo. Ele estava cada vez mais feliz. Um peso saiu da sua cabeça.

No Natal, não deu nenhuma opinião sobre o assado. Não tinha resposta a dar sobre o que achava da nova cor do cabelo da sua mulher. Quando o empregado da loja perguntou se o casaco que comprara era para presente, também disse que não sabia. “Quer mais suco?”, “Quantos gramas de queijo?”, “Vamos de férias para a praia?”, “O que é que vamos fazer com o 13o salário?”. Várias perguntas, nenhuma resposta.

De repente, começou a perder o controle da sua vida. Ninguém perguntava mais o que queria ou o que achava das coisas. Tudo era decidido sem que a sua opinião fosse ouvida, simplesmente porque todos sabiam que ele não tinha nenhuma. Às vezes, mesmo sem dizer nada, conseguia o que queria por mero acaso, quando a opinião geral coincidia com o que realmente desejava.

Desconfortável e perdido, fugiu de casa, abandonou sociedade, mulher, filhos, foi viver sozinho no meio do mato, porque foi o lugar que chegou indo em linha reta sem se perguntar para onde deveria virar. Pelo menos lá não tinha que responder à ninguém. Nunca mais foi visto, dizem que morreu de fome ou de dúvida, afogado nas sua opiniões e valores. Afinal, mesmo sozinhos, o consciente e o subconsciente não se calam jamais.