Dória vai pintar o muro de Trump

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Depois de anunciar que vai cumprir a promessa de construir um muro na fronteira com o México, Donald Trump deve revelar nos próximos dias o nome das empresas envolvidas no processo.

Não se sabe ainda quem vai levantar o muro, mas de acordo com informações obtidas por este blog, tudo indica que o prefeito de São Paulo, João Dória, vai ser chamado para fazer a pintura. “Já vi o trabalho de Dória e fiquei feliz com a sua velocidade. Ele realmente trabalha depressa”, teria dito o presidente americano.

Dória se mostrou animado com o convite de Trump, mas não espera começar imediatamente.”Ainda não escolhi a cor, mas hesito entre o cinza chumbo, cinza escuro, cinza prata ou cinza alumínio”, declarou o prefeito da cidade.

Um dos fatores que influenciaram na escolha de João Dória foi a preparação para o cargo. “Quando Trump soube que ele já tinha experiência e o uniforme, decidiram logo”, confessou um membro da equipe de Dória.

O prefeito de São Paulo não quis comentar as polêmicas envolvendo o presidente norte-americano e prefere dar tempo para Trump mostrar o seu valor. “As pessoas são muito apressadas em classificar os governantes. Em política nem tudo é preto ou branco, às vezes também é cinza”, declarou Dória.

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Como a imprensa vai enfrentar as notícias falsas?

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Não há para onde fugir | imagem: Free Press

Tempos difíceis, esses tempos modernos. 2016 foi um ano de mortes, eleições, afastamentos, vitórias e muitas outras coisas que ficaram lá na gaveta da memória. De vez em quando, como num álbum de família, abrimos a gaveta de um ano ao acaso e nos recordamos do que passou. Revivemos na nossa mente um evento interessante ou escolhemos colocar esse álbum de imagens ruins no fundo do cérebro para tentar esquecer o que a memória teima em lembrar.

Em 2017, como em todos os anos, queríamos novidades boas. Mas certas coisas não mudam com as folhas do calendário e ao acordarmos no primeiro de janeiro, continuamos com os mesmos problemas do último dia do ano anterior. E para não ficar em exemplos genéricos, vamos falar da mídia.

Oscar Wilde dizia:”a diferença entre o jornalismo e a literatura é que o jornalismo é ilegível e a literatura não é lida”.

Como jornalista, estou cansado de ouvir falar sobre a crise da mídia. Primeiro foi a financeira, com a queda de vendas dos jornais nas bancas. Depois veio a crise de identidade, com a chegada da internet e a sua nova maneira de comunicar. E agora, a mídia enfrenta a maior crise desde a sua criação: a crise de credibilidade.

Em 2003, o New York Times descobriu que um dos seus repórteres inventara que estaria trabalhando em outras cidades dos Estados Unidos enquanto na verdade estava o tempo todo escrevendo no seu apartamento em Nova York. Ele pegava fotos de outros órgãos de comunicação e conseguia as informações com colegas fotógrafos que se encontravam nos locais de reportagem. O repórter foi afastado. Nesse caso, é um exemplo de ruptura do contrato de confiança entre o jornal e o seu jornalista.

Alguns anos depois, a revista norte-americana Rolling Stone foi condenada por ter publicado um artigo sem verificação jornalística sobre um estupro coletivo ocorrido no campus da Universidade de Virginia. A jornalista Sabrina Erdely escreveu a matéria se baseando apenas no depoimento de uma das vítimas, sem nenhuma apuração com os acusados ou com outros membros da universidade. Depois da condenação, a Rolling Stone publicou a retratação e tentou analisar o que correu mal.

Numa carta de Thomas Jefferson escrita em 1807, o então presidente dos EUA afirma:  “O homem que não lê jornais está mais bem informado que aquele que os lê, porquanto o que nada sabe está mais próximo da verdade que aquele cujo espírito está repleto de falsidades e erros”.

Nos anos de ouro da mídia, famílias sentavam-se ao lado do rádio para ouvir as notícias. O vendedor de jornais mal dava conta de atender a todos. Era o momento de saber o que estava acontecendo do outro lado da rua ou do outro lado do mundo. As notícias tinham hora para chegar. Os jornais eram referência porque o que estava lá escrito era verdade – mesmo que desde sempre influenciado pela agenda dos proprietários do meio de comunicação. A expressão “Quarto Poder”, referindo-se aos três poderes nomeados do Estado de Direito(Executivo, Legislativo e Judiciário), mostra o tamanho do potencial de influência da mídia nas sociedades modernas.

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A internet é mais do que fake news e gatos | imagem: Salihan

Com a chegada das redes sociais, tudo mudou. A velocidade de trasmissão do conhecimento e, por sua vez, das notícias, se acelerou à velocidade dos cliques e não à velocidade da apuração da verdade.

Responda rápido: quanto tempo a sua avó e o seu avô demoravam para ler o jornal de manhã? Eles estavam informados depois da leitura? E você? Como você se informa sobre a atualidade? Tudo o que você “curtiu” no Facebook foi lido por você e saiu de uma fonte confiável?

Antigamente a verificação das fontes era feita pelo jornalista e apenas por ele. Mas agora, que o leitor virou também emissor de informação, quem verifica essas fontes?

Órgãos de comunicação alternativos surgem em todos os países, fortalecidos pela fraqueza da mídia tradicional. “Leia o que você não lê nos outros jornais”, pregam eles. É um slogan forte mas que tem que se basear no contrato de confiança entre o leitor e o meio. Não sejamos inocentes, sempre escolhemos a mídia de preferência de acordo com as nossas convicções. Mas cada um deles deve ser confiável, mesmo que tenha um ângulo de abordagem específico.

Ao mesmo tempo, grandes mídias como o New York Times e o The Guardian tentam cativar novos leitores dispostos a pagar por um jornalismo de qualidade, argumentando que a boa informação custa dinheiro. Um dinheiro que a publicidade já não consegue pagar sozinha.

Os sites de “notícias falsas humorísticas” como o Sensacionalista – Isento de Verdade, no Brasil; o Inimigo Público – Se não aconteceu, podia ter acontecido, em Portugal; ou o Gorafi – Todas a informação de acordo com fontes contraditórias, na França, apenas para citar alguns, tem que ser engraçados e ainda ter o esforço extra de conseguir convencer as pessoas de que as notícias são mesmo falsas. Não é à toa que todos eles tem um subtítulo esclarecedor dos mais distraídos.

Por outro lado, surgem os sites de fake news “profissionais” onde o objetivo pode ser variado, desde vender espeço publicitário, divulgar uma ideia política ou provocar uma falsa discussão. O New York Times fez uma matéria muito interessante sobre a indústria das notícias falsas e como, ao contrário dos mídias tradicionais, não é preciso muitos meios para fazer circular uma informação.

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Primeira medida de Trump: todos os dias serão 1 de abril | imagem: DonkeyHotey

O presidente eleito Donald Trump pode ser o líder dos Estados Unidos mas também é o nome máximo da era pós-verdade. Seus tweets, quase sempre auto-elogiosos e críticos de tudo que o ataca, espalham e criticam notícias reais e falsas com a mesma veemência, criando confusão no receptor de suas mensagens.

A divulgação pelo BuzzFeed, de um relatório elaborado por um órgão privado de segurança, do qual faz parte um suposto ex-membro dos serviços secretos britânicos, foi o estopim de um debate sobre a ética no novo jornalismo.

Segue a explicação de Ben Smith, editor-chefe do BuzzFeed, publicada em um memorando interno e que vai ser tema de muitas aulas de jornalismo daqui para a frente:

“Publicá-lo não foi uma decisão fácil ou simples e pessoas de boa vontade podem discordar da nossa escolha. Mas publicar o dossiê reflete a maneira pela qual vemos o trabalho de um repórter em 2017”.

Recorde-se que as informações publicadas no BuzzFeed rodaram as altas esferas políticas e jornalísticas americanas sem encontrar ninguém que as publicasse pela total impossibilidade de confirmar as informações contidas no documento.

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Não acredite em tudo o que lê | imagem: reprodução

Em 1938, um jovem Orson Welles narrou pelo rádio a invasão da Terra por seres alienígenas. Tratava-se de uma dramatização do livro “A Guerra dos Mundos” de H.G. Wells. Muitas das seis milhões de pessoas que ouviam o programa não prestaram atenção no contexto ou pegaram a história pela metade. O formato convincente elaborado por Welles e o meio confiável da rádio enganaram milhões de pessoas trazendo pânico e assustando os mais distraídos.

A obra de H.G. Wells foi escrita em 1898 com uma enorme modernidade jornalística, sendo um dos precursores da ficção científica. Do seu lado, Welles adaptou a ficção à realidade e foi um dos precursores da notícia falsa. Infelizmente, quase 120 anos depois do livro e oitenta anos depois da transmissão de rádio, parece que ainda deixamos uma ficção bem embrulhada nos enganar.