Informar, verbo inventivo

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Lendo as repercussões do dia

Eu repercuto, tu repercutes, ele repercute. Nós repercutimos, vós repercutis, eles repercutem. Todo mundo repercute. As pessoas deixaram de falar, os jornais deixaram de apurar, os sites deixaram de informar. Apenas repercutimos. Na ânsia de transmitir informações de forma rápida e conseguir acessos, muitos media passaram a ser uma espécie de Twitter não-oficial.

Informações escapam na velocidade de um “enter”, deslizam pelas redes sociais, escorregam nas mesas de bar, se arrastam no WhatsApp, explodem nas discussões e caem de barriga no chão quando desmentidas.

Antes, parávamos tudo para ler as notícias. Ficávamos em silêncio para ouvir o rádio, nos amontoávamos no sofá para ver a televisão. Agora, passamos os olhos displicentes pelas vitrines de manchetes, um “like” virou símbolo de sucesso. Se tudo mudou, mudemos também as conjugações. Todos juntos, vamos conjugar o verbo informar no presente: eu repercuto, tu acreditas, ele espalha. Nós nos enganamos, vós procurais a verdade, eles explicam que afinal era mentira.

 

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Afinal, o que são as fake news?

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Notícias falsas estão ali. Ou será que estão para lá? (Imagem: Nick Youngson)

De acordo com a BBC, “fake news” é a prática de desinformação pelo uso de informações ou dados incorretos. A definição quase sempre é baseada em conceitos subjetivos e pessoais, o que provoca ainda mais desinformação e muita polêmica. Cada um defende o seu lado, acusando o outro de usar fontes duvidosas dependendo do que acredita.

Liz Corbin, responsável pelo serviço de checagem da BBC, divide as fake news, ou notícias falsas, em várias categorias:

1) Noticias inventadas

São histórias falsas, inexistentes, muitas vezes usadas com objetivo político mas nem sempre criadas por um órgão oficial.

2) Propaganda

Podem ser informações erradas ou ligeiramente incorretas difundidas por um governo ou grupo político para passar uma mensagem. No entanto a informação nem sempre é falsa. Dados estatísticos, por exemplo, podem ser perfeitamente verdadeiros mas analisados de maneira parcial para interpretar a realidade de uma determinada maneira.

3) Vídeos e fotos não confirmadas

Muitas vezes uma imagem é mal atribuída a um evento, data ou local e espalhada de forma viral sem confirmação. A força da imagem tem relação direta com a velocidade da sua difusão. No Facebook ou no Twitter, uma imagem viaja muito mais rápido do que as palavras e a verificação nem sempre ocorre.

4) Paródia

O humor não é necessariamente falso, mas existem muitos sites, como o Inimigo Público em Portugal, o Sensacionalista no Brasil ou o Gorafi, na França – apenas para citar alguns exemplos – que usam da realidade e do absurdo para criar notícias engraçadas. A ligeira semelhança com a realidade basta para serem confundidas com o real e espalhadas como tal.


Boatos e Fake News

O termo foi popularizado ao extremo por Donald Trump, que usa a expressão em quase todos os seus tweets. O problema é que Trump usa “FAKE NEWS!” (geralmente em maiúsculas e seguido de exclamação) para classificar uma miscelânea de informações, sejam elas notícias falsas, erros jornalísticos (que sempre ocorreram e devem ser evitados) e qualquer notícia verdadeira que não esteja de acordo com o seu ponto de vista.

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Na nossa bolha estamos prontos para enfrentar o mundo (Foto: John Loo)

Antes das fake news, havia os boatos. Na sua origem latina, o termo referia-se ao mugido do boi, evoluiu para definir um barulho forte e com o tempo passou a descrever uma informação de origem desconhecida e de veracidade incerta. Os boatos foram promovidos à fake news graças ao fenômeno das redes sociais. Somos muito mais inclinados a acreditar numa informação quando ela é transmitida por alguém que conhecemos e, idealmente, confiamos.

Esse papel de fiabilidade era exercido pela mídia, mas com a sua decadência e com a velocidade de difusão de notícias, há a falsa urgência de estar informado sobre tudo e o tempo todo, e de ter algo a dizer para preencher soundbytes de uma caixa de comentários. A fiabilidade foi pulverizada e a verificação foi eliminada. Obviamente, os media continuam a fazer esse papel, que faz parte do trabalho jornalístico, mas perderam a audiência. Tal evolução das notícias explica parcialmente o surgimento de centenas de serviços de verificação de notícias, seja dentro dos órgãos de comunicação ou como sites externos e independentes. A realidade precisa agora de um carimbo de legitimidade suplementar.

Somado a tudo isso, temos o fenômeno das bolhas de informação. Os algoritmos do Facebook, do Twitter, do Google, Netflix e até das SmartTVs nos fornecem conteúdo personalizado, de acordo com os gostos. Em outras palavras, para o peixe-consumidor-de-informação do século XXI, o mundo é feito de um oceano de peixes que pensam como nós. Ou para usar o exemplo dos boatos e da etimologia da palavra, hoje em dia mugimos todos no mesmo tom e igualzinho ao mugido do boi do nosso lado.

Entenda a crise do Facebook – Cambridge Analytica

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Imagem: mkhmarketing

O New York Times, juntamente com os britânicos do The Observer e do Channel 4 investigaram e lançaram uma bomba para o mundo: dados de mais de 50 milhões de pessoas foram usados com fins políticos, com a permissão do Facebook.

A Cambridge Analytica é uma firma de marketing de dados de comportamento. De acordo com a própria empresa, ela coleta dados para “mudar o comportamento de um usuário”. Até aí nada de ilegal num mundo de informações compartilhadas nas redes sociais. Christopher Wylie, fonte da reportagem, trabalhou com Alexandre Nix em outra empresa e conta como a Cambridge Analytica foi formada. De acordo com Wylie, Nix conseguiu o apoio do discreto milionário Robert Mercer, um dos maiores financiadores da campanha de Donald Trump (15 milhões de dólares em doações) e de Steve Bannon, do site Breitbart News

Pequeno parêntese: Mercer é um dos fundadores da Renaissance Technologies, um fundo sigiloso que usa algoritmos para tomar decisões políticas. Ele é um dos maiores apoiadores dos republicanos e aconselhou Trump na escolha da sua equipe, incluindo o próprio Bannon e Kellyanne Conway. Mercer tinha uma grande participação financeira no site de notícias Breitbart News.

Voltamos à história. Depois da fundação da Camdridge Analytica, a empresa foi abordada pelo professor Aleksandr Kogan, da Universidade de Cambridge, que fez uma proposta irrecusável para a empresa de Nix: ele teria uma enorme base de dados de utilizadores do Facebook pescada graças a um aplicativo com as devidas permissões  de acesso daquela rede social. E não apenas das pessoas que aceitaram usar o aplicativo, mas da rede completa de amigos dessas pessoas. Contatos, likes, posts e até mensagens privadas poderiam ser resgatadas graças ao aplicativo de Kogan.

Wylie diz que a Cambridge Analytica passou a ter uma arma para controlar não só eleitores, mas a personalidade desses eleitores.

De acordo com os dados divulgados, cerca de 270 mil pessoas deram acesso aos seus dados pessoais e à sua rede de contatos, o que multiplica o número de pessoas para cerca de 50 milhões de pessoas.

Nix já tinha declarado que a sua empresa não usava dados do Facebook e que apenas “usava a plataforma para fins publicitários como qualquer outra marca anuncia no Facebook”.

A Cambridge Analytica usou os dados coletados para influenciar grupos de eleitores divulgando mensagens apelativas de acordo com o seu perfil político. Wylie diz que com o uso de algoritmos baseados nos dados coletados, a empresa sabia o tipo, o formato e o tom da mensagem a ser transmitida à determinada pessoa.

Kogan se defende dizendo que é um bode expiatório e que fez tudo na legalidade, alegando que tinha uma estreita colaboração com o Facebook, que permitiu a utilização do seu aplicativo na sua rede.

O Facebook diz que não se trata de um roubo de informações , que apertou as suas condições de privacidade desde então e que tinha a garantia da Cambridge Analytica que os dados tinham sido apagados.

No Brasil

Apesar do questionamento sobre a ética do uso de dados para influenciar eleitores, o trabalho da Cambridge Analytica não é ilegal quando usa dados abertos ou cedidos pelas pessoas com conhecimento de causa. A empresa vai trabalhar no Brasil através do seu braço criado com o publicitário André Torretta, chamado CA-Ponte.

As eleições de 2018 estão no horizonte e André deu uma entrevista para a Folha de SP em janeiro falando sobre a sua atuação. “O que estamos fazendo é sistematizar e dando o olhar político e comportamento. A grande invenção da Cambridge é botar sujeitos de comportamento como eu para olhar número. O povo coloca cientista de dados para olhar número. O cientista de dados olha o número de uma maneira não comportamental. Eu olho para o número e digo: “Bem, eu consigo através dessas informações que eu tenho achar os neuróticos do Brasil para o Bolsonaro ganhar a campanha eleitoral? Consigo”. Então, tá, o André começa a definir quem é neurótico na rede e a gente começa a traçar perfis de neuróticos e começa a falar só com os neuróticos. Essa é a lógica”.

Torreta já disse que não trabalha com extremos (“fazem mal ao negócio”) e que recusou fazer a campanha de Bolsonaro mas que não teria problemas em trabalhar com a centro-esquerda e com a centro-direita.

Dória vai pintar o muro de Trump

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Depois de anunciar que vai cumprir a promessa de construir um muro na fronteira com o México, Donald Trump deve revelar nos próximos dias o nome das empresas envolvidas no processo.

Não se sabe ainda quem vai levantar o muro, mas de acordo com informações obtidas por este blog, tudo indica que o prefeito de São Paulo, João Dória, vai ser chamado para fazer a pintura. “Já vi o trabalho de Dória e fiquei feliz com a sua velocidade. Ele realmente trabalha depressa”, teria dito o presidente americano.

Dória se mostrou animado com o convite de Trump, mas não espera começar imediatamente.”Ainda não escolhi a cor, mas hesito entre o cinza chumbo, cinza escuro, cinza prata ou cinza alumínio”, declarou o prefeito da cidade.

Um dos fatores que influenciaram na escolha de João Dória foi a preparação para o cargo. “Quando Trump soube que ele já tinha experiência e o uniforme, decidiram logo”, confessou um membro da equipe de Dória.

O prefeito de São Paulo não quis comentar as polêmicas envolvendo o presidente norte-americano e prefere dar tempo para Trump mostrar o seu valor. “As pessoas são muito apressadas em classificar os governantes. Em política nem tudo é preto ou branco, às vezes também é cinza”, declarou Dória.

Como a imprensa vai enfrentar as notícias falsas?

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Não há para onde fugir | imagem: Free Press

Tempos difíceis, esses tempos modernos. 2016 foi um ano de mortes, eleições, afastamentos, vitórias e muitas outras coisas que ficaram lá na gaveta da memória. De vez em quando, como num álbum de família, abrimos a gaveta de um ano ao acaso e nos recordamos do que passou. Revivemos na nossa mente um evento interessante ou escolhemos colocar esse álbum de imagens ruins no fundo do cérebro para tentar esquecer o que a memória teima em lembrar.

Em 2017, como em todos os anos, queríamos novidades boas. Mas certas coisas não mudam com as folhas do calendário e ao acordarmos no primeiro de janeiro, continuamos com os mesmos problemas do último dia do ano anterior. E para não ficar em exemplos genéricos, vamos falar da mídia.

Oscar Wilde dizia:”a diferença entre o jornalismo e a literatura é que o jornalismo é ilegível e a literatura não é lida”.

Como jornalista, estou cansado de ouvir falar sobre a crise da mídia. Primeiro foi a financeira, com a queda de vendas dos jornais nas bancas. Depois veio a crise de identidade, com a chegada da internet e a sua nova maneira de comunicar. E agora, a mídia enfrenta a maior crise desde a sua criação: a crise de credibilidade.

Em 2003, o New York Times descobriu que um dos seus repórteres inventara que estaria trabalhando em outras cidades dos Estados Unidos enquanto na verdade estava o tempo todo escrevendo no seu apartamento em Nova York. Ele pegava fotos de outros órgãos de comunicação e conseguia as informações com colegas fotógrafos que se encontravam nos locais de reportagem. O repórter foi afastado. Nesse caso, é um exemplo de ruptura do contrato de confiança entre o jornal e o seu jornalista.

Alguns anos depois, a revista norte-americana Rolling Stone foi condenada por ter publicado um artigo sem verificação jornalística sobre um estupro coletivo ocorrido no campus da Universidade de Virginia. A jornalista Sabrina Erdely escreveu a matéria se baseando apenas no depoimento de uma das vítimas, sem nenhuma apuração com os acusados ou com outros membros da universidade. Depois da condenação, a Rolling Stone publicou a retratação e tentou analisar o que correu mal.

Numa carta de Thomas Jefferson escrita em 1807, o então presidente dos EUA afirma:  “O homem que não lê jornais está mais bem informado que aquele que os lê, porquanto o que nada sabe está mais próximo da verdade que aquele cujo espírito está repleto de falsidades e erros”.

Nos anos de ouro da mídia, famílias sentavam-se ao lado do rádio para ouvir as notícias. O vendedor de jornais mal dava conta de atender a todos. Era o momento de saber o que estava acontecendo do outro lado da rua ou do outro lado do mundo. As notícias tinham hora para chegar. Os jornais eram referência porque o que estava lá escrito era verdade – mesmo que desde sempre influenciado pela agenda dos proprietários do meio de comunicação. A expressão “Quarto Poder”, referindo-se aos três poderes nomeados do Estado de Direito(Executivo, Legislativo e Judiciário), mostra o tamanho do potencial de influência da mídia nas sociedades modernas.

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A internet é mais do que fake news e gatos | imagem: Salihan

Com a chegada das redes sociais, tudo mudou. A velocidade de trasmissão do conhecimento e, por sua vez, das notícias, se acelerou à velocidade dos cliques e não à velocidade da apuração da verdade.

Responda rápido: quanto tempo a sua avó e o seu avô demoravam para ler o jornal de manhã? Eles estavam informados depois da leitura? E você? Como você se informa sobre a atualidade? Tudo o que você “curtiu” no Facebook foi lido por você e saiu de uma fonte confiável?

Antigamente a verificação das fontes era feita pelo jornalista e apenas por ele. Mas agora, que o leitor virou também emissor de informação, quem verifica essas fontes?

Órgãos de comunicação alternativos surgem em todos os países, fortalecidos pela fraqueza da mídia tradicional. “Leia o que você não lê nos outros jornais”, pregam eles. É um slogan forte mas que tem que se basear no contrato de confiança entre o leitor e o meio. Não sejamos inocentes, sempre escolhemos a mídia de preferência de acordo com as nossas convicções. Mas cada um deles deve ser confiável, mesmo que tenha um ângulo de abordagem específico.

Ao mesmo tempo, grandes mídias como o New York Times e o The Guardian tentam cativar novos leitores dispostos a pagar por um jornalismo de qualidade, argumentando que a boa informação custa dinheiro. Um dinheiro que a publicidade já não consegue pagar sozinha.

Os sites de “notícias falsas humorísticas” como o Sensacionalista – Isento de Verdade, no Brasil; o Inimigo Público – Se não aconteceu, podia ter acontecido, em Portugal; ou o Gorafi – Todas a informação de acordo com fontes contraditórias, na França, apenas para citar alguns, tem que ser engraçados e ainda ter o esforço extra de conseguir convencer as pessoas de que as notícias são mesmo falsas. Não é à toa que todos eles tem um subtítulo esclarecedor dos mais distraídos.

Por outro lado, surgem os sites de fake news “profissionais” onde o objetivo pode ser variado, desde vender espeço publicitário, divulgar uma ideia política ou provocar uma falsa discussão. O New York Times fez uma matéria muito interessante sobre a indústria das notícias falsas e como, ao contrário dos mídias tradicionais, não é preciso muitos meios para fazer circular uma informação.

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Primeira medida de Trump: todos os dias serão 1 de abril | imagem: DonkeyHotey

O presidente eleito Donald Trump pode ser o líder dos Estados Unidos mas também é o nome máximo da era pós-verdade. Seus tweets, quase sempre auto-elogiosos e críticos de tudo que o ataca, espalham e criticam notícias reais e falsas com a mesma veemência, criando confusão no receptor de suas mensagens.

A divulgação pelo BuzzFeed, de um relatório elaborado por um órgão privado de segurança, do qual faz parte um suposto ex-membro dos serviços secretos britânicos, foi o estopim de um debate sobre a ética no novo jornalismo.

Segue a explicação de Ben Smith, editor-chefe do BuzzFeed, publicada em um memorando interno e que vai ser tema de muitas aulas de jornalismo daqui para a frente:

“Publicá-lo não foi uma decisão fácil ou simples e pessoas de boa vontade podem discordar da nossa escolha. Mas publicar o dossiê reflete a maneira pela qual vemos o trabalho de um repórter em 2017”.

Recorde-se que as informações publicadas no BuzzFeed rodaram as altas esferas políticas e jornalísticas americanas sem encontrar ninguém que as publicasse pela total impossibilidade de confirmar as informações contidas no documento.

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Não acredite em tudo o que lê | imagem: reprodução

Em 1938, um jovem Orson Welles narrou pelo rádio a invasão da Terra por seres alienígenas. Tratava-se de uma dramatização do livro “A Guerra dos Mundos” de H.G. Wells. Muitas das seis milhões de pessoas que ouviam o programa não prestaram atenção no contexto ou pegaram a história pela metade. O formato convincente elaborado por Welles e o meio confiável da rádio enganaram milhões de pessoas trazendo pânico e assustando os mais distraídos.

A obra de H.G. Wells foi escrita em 1898 com uma enorme modernidade jornalística, sendo um dos precursores da ficção científica. Do seu lado, Welles adaptou a ficção à realidade e foi um dos precursores da notícia falsa. Infelizmente, quase 120 anos depois do livro e oitenta anos depois da transmissão de rádio, parece que ainda deixamos uma ficção bem embrulhada nos enganar.