O que passa pela cabeça dos militares?

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O general Eduardo Villas Bôas decidiu que era apropriado, nas vésperas do julgamento do recurso do processo de Lula no Supremo Tribunal Federal (STF), dar a sua opinião sobre como o resultado da decisão poderia afetar o ânimo nacional:

Primeiro vamos analisar as palavras do general. Ele faz uma pergunta para duas entidades que agrupam um monte de gente. As instituições, que na leitura imediata é o STF, vai responder hoje, mas por outro lado eu ignoro a vontade de outras instituições em responder ao general. Será que o Instituto Brasileiro de Floricultura tem uma opinião a respeito? E o Instituto Médico Legal? São muitas questões. Apesar de tudo, penso que o Instituto de Pesos e Medidas poderia ter algo a dizer, pelo menos sobre o tamanho da irresponsabilidade do senhor general e no peso que suas palavras podem ter na sociedade. Vamos aguardar novidades.

Em seguida ele fala no povo, esse grupo de pessoas que moram no mesmo lugar e que são úteis ou inúteis, de acordo com os interesses de quem chama. O dicionário explica que o povo “é um conjunto de pessoas que falam a mesma língua, têm costumes e interesses semelhantes, história e tradições comuns”. Começamos mal. Há muito tempo que os brasileiros não falam a mesma língua e quanto aos costumes, eles são tão semelhantes quanto um condomínio fechado parecer uma favela. Quanto à história comum, felizmente, ou infelizmente, estamos todos no mesmo barco; navegamos e afundamos juntos, apesar de alguns insistirem em enfiar a cabeça dos outros para baixo da água para continuarem à tona.

O general fala em Nação, com maíscula, porque a hierarquia militar e os conservadores adoram usar letras grandes quando querem exaltar valores que lhe interessam: Nação, Pátria, Família. Mas reparem que o povo continua com minúscula.

Villas Bôas continua afirmando “julgar compartilhar os anseios”, pelos vistos sem muita certeza, para em seguida falar nos “cidadãos de bem”, que normalmente é usado para falar do próprio campo, em oposição aos outros que, aí sim, podem ser chamados de “escumalha”, “ralé” ou para citar um termo querido à história do Brasil, “comunistas”.  Termina falando sobre continuar as “missões institucionais” numa linguagem vaga que pode se referir à dar um golpe ou escovar dentes de ursos de pelúcia.

O exército brasileiro possui oito comandos regionais. Veja a reação de cada um deles ao tweet do general.

  • Comando Militar da Amazônia – General Antônio Miotto

O general Miotto aprecia muito a palavra “Aço” e parece pronto para empunhar seus pontos de exclamação na defesa do Brasil.

  • Comando Militar do Norte – General Carlos Alberto Neiva Barcellos

Não se manifestou publicamente.

  • Comando Militar do Nordeste – General Artur Costa Moura

Não se manifestou publicamente.

  • Comando Militar do Oeste – General José Luís Dias Freitas

Resolveu falar apenas em nome dos que vestem fardas:

  • Comando Militar do Planalto – General Luís Carlos Pereira Gomes

Não se manifestou publicamente.

  • Comando Militar do Leste – General Walter Sousa Braga Netto

Interventor no Rio de Janeiro, Braga Netto usou a conta do Comando para também apoiar o general Villas Bôas:

  • Comando Militar do Sudeste – General Mauro César Lourena Cid

Não se manifestou publicamente.

  • Comando Militar do Sul – General Edson Leal Pujol

Não falou nada sobre a declaração de Villas Bôas mas tinha dito que as declarações do general Mourão (afastado pelas declarações de que o exército poderia intervir se o problema político não fosse resolvido) deviam ser vistas “de acordo com o contexto”.

O general Paulo Chagas, foi além e resolveu declarar que está pronto há tempos, mas pelos equipamentos que preparou, parece que ele viu o passarinho do Twitter e pensou que seria um pombo-correio.

Na escola, estudamos que os poderes no Brasil são o Executivo, o Legislativo e o Judiciário. O Executivo eleito em 2014, Dilma-Temer, foi eleito legitimamente como uma unidade. Com o tempo, o Executivo rachou e passou a ser dois, numa espécie de Ruth e Raquel da democracia. Ganhou a irmã má e Temer chegou à presidência. Temos um Executivo que é parecido com quem conhecíamos, mas não faz as mesmas coisas que imaginávamos.

O Legislativo é uma grande sopa de partidos sem ideias e de deputados sem projetos, apenas em busca de apoios e cargos num governo baseado em alianças. Dentro de um sistema político-partidário podre, a sopa é sempre indigesta.

O Judiciário nunca teve tanto protagonismo quanto hoje em dia e anda com o ego inflado típico de quem decide os rumos do país, impulsionado por uma genuína ânsia de limpeza e de combate à corrupção. Com tantos poderes esvaziados de sua ação original, quem sobra? Os militares, entidade equidistante de todos os poderes, mas ao mesmo tempo perto de todos eles e de todos nós.

O general Vilas Bôas pergunta às instituições e ao povo quem está pensando no bem do país. Engraçado ele perguntar porque o povo já respondeu à essa pergunta nas urnas há quatro anos. Resta apenas continuar ouvindo as urnas, esse megafone da democracia. Infelizmente parece que algumas vozes incomodam mais do que outras.

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Informar, verbo inventivo

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Lendo as repercussões do dia

Eu repercuto, tu repercutes, ele repercute. Nós repercutimos, vós repercutis, eles repercutem. Todo mundo repercute. As pessoas deixaram de falar, os jornais deixaram de apurar, os sites deixaram de informar. Apenas repercutimos. Na ânsia de transmitir informações de forma rápida e conseguir acessos, muitos media passaram a ser uma espécie de Twitter não-oficial.

Informações escapam na velocidade de um “enter”, deslizam pelas redes sociais, escorregam nas mesas de bar, se arrastam no WhatsApp, explodem nas discussões e caem de barriga no chão quando desmentidas.

Antes, parávamos tudo para ler as notícias. Ficávamos em silêncio para ouvir o rádio, nos amontoávamos no sofá para ver a televisão. Agora, passamos os olhos displicentes pelas vitrines de manchetes, um “like” virou símbolo de sucesso. Se tudo mudou, mudemos também as conjugações. Todos juntos, vamos conjugar o verbo informar no presente: eu repercuto, tu acreditas, ele espalha. Nós nos enganamos, vós procurais a verdade, eles explicam que afinal era mentira.

 

Resenha: Jack White – Boarding House Reach

Alguém deixou Jack White brincar com os instrumentos e com a mesa de mixagem e o resultado é Boarding House Reach, o terceiro álbum da carreira a solo do músico de Detroit.

O disco abre com “Connected by Love”, com um estilo mais próximo dos trabalhos anteriores de White, mas, não se iluda, é apenas um ritual de passagem. O artista decidiu chutar o analógico para longe e abraçar os efeitos digitais – talvez não tão longe assim, afinal, ele ainda é um dos mais árduos defensores da tecnologia analógica. Numa entrevista ele chegou a afirmar que “a tecnologia é a grande destruidora da emoção e da verdade” e que o auto-tunning facilita a vida dos músicos para “sair do estúdio e chegar mais cedo em casa”.

Falando sobre o seu processo de criação para o site Global News, Jack White explica que usou bastante o digital para editar o álbum mas que não gostaria de criar puramente nesse mundo dos computadores. “As pessoas pensam que eu gosto do analógico porque é antigo e está na moda. Mas quando você grava numa fita e não gosta, você grava por cima e apaga o que tinha sido feito. No digital, tudo fica lá. Eu gosto de apagar o que eu não estou usando”.

Em Boarding House Reach há vários trechos de sons, raps, vozes, poemas, pedaços soltos de alguma coisa que parecem ter sido colados com uma divertida intenção artística. White disse que cada vez que tinha uma ideia, gravava trechos de cinco ou dez segundos para usar posteriormente e não esquecer, como as batidas de “Corporation” e de “Respect Commander”.

Muitos músicos entrando e saindo do estúdio, gravando trechos, tocando juntos, inventando novos sons. Esse álbum parece ser mais uma obra do talento de produção de White do que o seu melhor disco como músico. Há momentos de grande qualidade. “Get in the Mind Shaft” tem algo parecido com uma cuíca, uma batida viciante com White cantando com um vocoder pela primeira vez e, quando a canção acaba, temos vontade de voltar e recomeçar. O disco começa e termina com o velho Jack White. “What’s Done is Done” é uma balada que poderia ter saído de qualquer um dos seus álbuns anteriores e “Humoresque” é uma linda melodia que tem potencial para ser cantarolada por papais e mamães para adormecer seus bebês.

Na promoção do novo disco, Jack White explicou que existe uma doença onde as pessoas são hiper sensíveis a certos sons, numa doença chamada misofonia. Ele explorou isso numa das suas músicas, “Hypermisiophoniac” colocando, segundo ele, “sons chatos e horríveis” tentando fazer com que eles fiquem bonitos e harmoniosos. Ouvindo Boarding House Reach vemos que, sem saber, White fez isso em todo o álbum e muitas vezes conseguiu.

Aqui, provisoriamente, o país do futuro

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Cansei de fechar os olhos aqui sentada, posso descansar e decidir amanhã? (Foto: Thiago Melo)

“Eu estou aqui para confundir, eu não estou aqui para explicar”. Chacrinha, além de balançar a pança e comandar a massa, parecia saber que acompanhar política não é fácil e seguir as atualidades judiciárias brasileiras não é tarefa para distraídos.

Para explicar aos leitores não-brasileiros ou que não acompanham de perto a macarronada política nacional vou tentar ser o mais claro possível nas próximas linhas.

Em janeiro, Lula foi condenado a mais de nove anos de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. A sua defesa recorreu, pedindo que ele não fosse preso até que todos os recursos fossem esgotados. A votação em segunda instância ocorre na próxima segunda-feira.

Pois em 2016, o STF tinha decidido que condenados poderiam cumprir pena logo depois da decisão judicial. Agora resolveram voltar a votar para saber se o que estava decidido em 2016 ficava decidido ou se decidiriam de novo.

No voto de ontem do STF, foram tomadas várias decisões, mas o que estava decidido para ser decidido ficou adiado por 13 dias. Mas três outras coisas foram votadas e decididas: que eles tem, sim, legitimidade para decidir; que eles deveriam adiar a decisão final e que deveriam suspender a sessão de ontem para continuar em outra ocasião. Resumindo, eles são ótimos para votar mas não muito bons para decidir, o que complica um pouco, sendo eles juízes.

São decisões provisórias. José Roberto de Toledo diz que o poder no Brasil é provisório desde 2013. Eu vou mais longe e digo que as coisas andam no provisório no Brasil desde a chegada de Pedro Álvares Cabral.

Na chegada das caravelas dos portugueses, uma cruz provisória foi instalada, improvisaram uma missa onde rezaram com os índios e em seguida foram colonizando como podiam, porque, afinal, não tinham dinheiro para proteger todo o território. Em seguida, após a Proclamação da República em 1889, Deodoro da Fonseca governou provisoriamente por dois anos. Depois, no século XX, Getúlio Vargas inaugurou o Governo Provisório que durou quatro anos, encerrando a primeira República em 1930. Outro exemplo são as medidas provisórias, usadas pelo presidente em situações de urgência, mas que normalmente são mais frequentes do que urgentes. E como não esquecer da CPMF (Contribuição Provisória sobre Movimentações Financeiras), que durou dez anos. A bandeira do Brasil deveria ser maior para poder escrever mais coisas: “Ordem e Progresso provisórios”. Talvez tenham dito: “escrevemos Ordem e Progresso por enquanto e depois pensamos em algo mais criativo”.

A decisão do STF em não decidir agora, simbolizada pelo ministro Marco Aurélio Mello, que dizia durante a votação, impaciente, que tinha um avião para pegar e que estava atrasado, mostra o símbolo do Brasil: vamos decidir, queremos decidir, vamos lá, é agora, está ficando tarde, fica para amanhã, não, amanha é sábado, fica para semana que vem, não, semana que vem é a semana santa e o Estado laico que me perdoe, eu não trabalho, então fica para outra semana. Pronto, decidido!

Somos supremos mesmo nessa arte de decidir.

 

Afinal, o que são as fake news?

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Notícias falsas estão ali. Ou será que estão para lá? (Imagem: Nick Youngson)

De acordo com a BBC, “fake news” é a prática de desinformação pelo uso de informações ou dados incorretos. A definição quase sempre é baseada em conceitos subjetivos e pessoais, o que provoca ainda mais desinformação e muita polêmica. Cada um defende o seu lado, acusando o outro de usar fontes duvidosas dependendo do que acredita.

Liz Corbin, responsável pelo serviço de checagem da BBC, divide as fake news, ou notícias falsas, em várias categorias:

1) Noticias inventadas

São histórias falsas, inexistentes, muitas vezes usadas com objetivo político mas nem sempre criadas por um órgão oficial.

2) Propaganda

Podem ser informações erradas ou ligeiramente incorretas difundidas por um governo ou grupo político para passar uma mensagem. No entanto a informação nem sempre é falsa. Dados estatísticos, por exemplo, podem ser perfeitamente verdadeiros mas analisados de maneira parcial para interpretar a realidade de uma determinada maneira.

3) Vídeos e fotos não confirmadas

Muitas vezes uma imagem é mal atribuída a um evento, data ou local e espalhada de forma viral sem confirmação. A força da imagem tem relação direta com a velocidade da sua difusão. No Facebook ou no Twitter, uma imagem viaja muito mais rápido do que as palavras e a verificação nem sempre ocorre.

4) Paródia

O humor não é necessariamente falso, mas existem muitos sites, como o Inimigo Público em Portugal, o Sensacionalista no Brasil ou o Gorafi, na França – apenas para citar alguns exemplos – que usam da realidade e do absurdo para criar notícias engraçadas. A ligeira semelhança com a realidade basta para serem confundidas com o real e espalhadas como tal.


Boatos e Fake News

O termo foi popularizado ao extremo por Donald Trump, que usa a expressão em quase todos os seus tweets. O problema é que Trump usa “FAKE NEWS!” (geralmente em maiúsculas e seguido de exclamação) para classificar uma miscelânea de informações, sejam elas notícias falsas, erros jornalísticos (que sempre ocorreram e devem ser evitados) e qualquer notícia verdadeira que não esteja de acordo com o seu ponto de vista.

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Na nossa bolha estamos prontos para enfrentar o mundo (Foto: John Loo)

Antes das fake news, havia os boatos. Na sua origem latina, o termo referia-se ao mugido do boi, evoluiu para definir um barulho forte e com o tempo passou a descrever uma informação de origem desconhecida e de veracidade incerta. Os boatos foram promovidos à fake news graças ao fenômeno das redes sociais. Somos muito mais inclinados a acreditar numa informação quando ela é transmitida por alguém que conhecemos e, idealmente, confiamos.

Esse papel de fiabilidade era exercido pela mídia, mas com a sua decadência e com a velocidade de difusão de notícias, há a falsa urgência de estar informado sobre tudo e o tempo todo, e de ter algo a dizer para preencher soundbytes de uma caixa de comentários. A fiabilidade foi pulverizada e a verificação foi eliminada. Obviamente, os media continuam a fazer esse papel, que faz parte do trabalho jornalístico, mas perderam a audiência. Tal evolução das notícias explica parcialmente o surgimento de centenas de serviços de verificação de notícias, seja dentro dos órgãos de comunicação ou como sites externos e independentes. A realidade precisa agora de um carimbo de legitimidade suplementar.

Somado a tudo isso, temos o fenômeno das bolhas de informação. Os algoritmos do Facebook, do Twitter, do Google, Netflix e até das SmartTVs nos fornecem conteúdo personalizado, de acordo com os gostos. Em outras palavras, para o peixe-consumidor-de-informação do século XXI, o mundo é feito de um oceano de peixes que pensam como nós. Ou para usar o exemplo dos boatos e da etimologia da palavra, hoje em dia mugimos todos no mesmo tom e igualzinho ao mugido do boi do nosso lado.

Entenda a crise do Facebook – Cambridge Analytica

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Imagem: mkhmarketing

O New York Times, juntamente com os britânicos do The Observer e do Channel 4 investigaram e lançaram uma bomba para o mundo: dados de mais de 50 milhões de pessoas foram usados com fins políticos, com a permissão do Facebook.

A Cambridge Analytica é uma firma de marketing de dados de comportamento. De acordo com a própria empresa, ela coleta dados para “mudar o comportamento de um usuário”. Até aí nada de ilegal num mundo de informações compartilhadas nas redes sociais. Christopher Wylie, fonte da reportagem, trabalhou com Alexandre Nix em outra empresa e conta como a Cambridge Analytica foi formada. De acordo com Wylie, Nix conseguiu o apoio do discreto milionário Robert Mercer, um dos maiores financiadores da campanha de Donald Trump (15 milhões de dólares em doações) e de Steve Bannon, do site Breitbart News

Pequeno parêntese: Mercer é um dos fundadores da Renaissance Technologies, um fundo sigiloso que usa algoritmos para tomar decisões políticas. Ele é um dos maiores apoiadores dos republicanos e aconselhou Trump na escolha da sua equipe, incluindo o próprio Bannon e Kellyanne Conway. Mercer tinha uma grande participação financeira no site de notícias Breitbart News.

Voltamos à história. Depois da fundação da Camdridge Analytica, a empresa foi abordada pelo professor Aleksandr Kogan, da Universidade de Cambridge, que fez uma proposta irrecusável para a empresa de Nix: ele teria uma enorme base de dados de utilizadores do Facebook pescada graças a um aplicativo com as devidas permissões  de acesso daquela rede social. E não apenas das pessoas que aceitaram usar o aplicativo, mas da rede completa de amigos dessas pessoas. Contatos, likes, posts e até mensagens privadas poderiam ser resgatadas graças ao aplicativo de Kogan.

Wylie diz que a Cambridge Analytica passou a ter uma arma para controlar não só eleitores, mas a personalidade desses eleitores.

De acordo com os dados divulgados, cerca de 270 mil pessoas deram acesso aos seus dados pessoais e à sua rede de contatos, o que multiplica o número de pessoas para cerca de 50 milhões de pessoas.

Nix já tinha declarado que a sua empresa não usava dados do Facebook e que apenas “usava a plataforma para fins publicitários como qualquer outra marca anuncia no Facebook”.

A Cambridge Analytica usou os dados coletados para influenciar grupos de eleitores divulgando mensagens apelativas de acordo com o seu perfil político. Wylie diz que com o uso de algoritmos baseados nos dados coletados, a empresa sabia o tipo, o formato e o tom da mensagem a ser transmitida à determinada pessoa.

Kogan se defende dizendo que é um bode expiatório e que fez tudo na legalidade, alegando que tinha uma estreita colaboração com o Facebook, que permitiu a utilização do seu aplicativo na sua rede.

O Facebook diz que não se trata de um roubo de informações , que apertou as suas condições de privacidade desde então e que tinha a garantia da Cambridge Analytica que os dados tinham sido apagados.

No Brasil

Apesar do questionamento sobre a ética do uso de dados para influenciar eleitores, o trabalho da Cambridge Analytica não é ilegal quando usa dados abertos ou cedidos pelas pessoas com conhecimento de causa. A empresa vai trabalhar no Brasil através do seu braço criado com o publicitário André Torretta, chamado CA-Ponte.

As eleições de 2018 estão no horizonte e André deu uma entrevista para a Folha de SP em janeiro falando sobre a sua atuação. “O que estamos fazendo é sistematizar e dando o olhar político e comportamento. A grande invenção da Cambridge é botar sujeitos de comportamento como eu para olhar número. O povo coloca cientista de dados para olhar número. O cientista de dados olha o número de uma maneira não comportamental. Eu olho para o número e digo: “Bem, eu consigo através dessas informações que eu tenho achar os neuróticos do Brasil para o Bolsonaro ganhar a campanha eleitoral? Consigo”. Então, tá, o André começa a definir quem é neurótico na rede e a gente começa a traçar perfis de neuróticos e começa a falar só com os neuróticos. Essa é a lógica”.

Torreta já disse que não trabalha com extremos (“fazem mal ao negócio”) e que recusou fazer a campanha de Bolsonaro mas que não teria problemas em trabalhar com a centro-esquerda e com a centro-direita.

The Bunnys – Test Driver

The Bunnys é a banda de Takeshi Terauchi, um guitarrista instrumental japonês que tem um estilo surf-rock típico dos anos 60, bastante influenciado pelos The Ventures. Takeshi, também conhecido como Terry, formou a banda em 1966 e ela durou apenas dois anos. Em 1969 ele retoma a sua primeira banda, The Blue Jeans, onde toca até hoje. A música que eu escolhi, “Test Driver”, faz parte da ótima coletânea “Monster a Go Go Volume One” e tem tanta energia que poderia fazer parte de qualquer filme de Quentin Tarantino.

 

Europa presente nos protestos por Marielle

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Ainda no seguimento da morte de Marielle Franco, na Europa, há várias manifestações organizadas para os próximos dias. Em Portugal, há uma vigília marcada para o dia 19 de março às 18 horas na praça Camões em Lisboa. No Porto, no mesmo dia, às 18h30 a reunião vai se realizar na frente do Consulado do Brasil, junto à Rotunda da Boavista.

O Bloco de Esquerda, partido que participa da coligação de esquerda no governo socialista português junto com o Partido Comunista Português, apresentou hoje um voto de pesar na Assembleia da República pelas mortes de Marielle Franco e Anderson Pedro Gomes. Catarina Martins, deputada do Bloco afirmou que este “é um voto de solidariedade com todos os que não desistem da democracia no Brasil”.

A vereadora do PSOL, será lembrada também na França. Em Paris, a manifestação “Marielle Presente!” participará de uma outra marcha, já prevista para o próximo dia 17 de março, de protesto contra a violência do Estado. Com o lema “O Racismo do Estado Mata”, a concentração vai começar em Opéra pelas 14 horas e vai percorrer as ruas de Paris até Stalingrad, na região norte da capital francesa.

No Parlamento Europeu, deputados do Podemos espanhol condenaram a morte da vereadora brasileira, exibindo cartazes de “Marielle Presente”.  “Assassinaram uma ativista feminista dos direitos humanos, anticapitalista, uma ativista assassinada em um clima de violência política pré-eleitoral no Brasil, declarou o eurodeputado Urban Crespo.

Alguns eurodeputados pediram o fim do acordo comercial com o Mercosul, muito criticado pelos agricultores europeus, em protesto contra a violência no Brasil e exigindo uma investigação independente e exaustiva do crime.

Veja outras concentrações e protestos organizados na Europa em nome de Marielle:

Madri: Embaixada do Brasil, 20 de março, 18 horas

Munique: Karlsplatz/Stachus, 18 de março, 14 horas

Estrasburgo: Place de la République, 17 de março, 14 horas

Londres: Embaixada do Brasil, 16 de março, 18 horas

 

Intervenção social já!

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Foto: Mídia Ninja

Dezenas de pessoas morrem todos os dias nas ruas do Rio de Janeiro. Pobres, negros, favelados, anônimos na multidão de mortes, silenciosos no estardalhaço político brasileiro. A periferia, o morro, o lugar onde muita gente não quer nem chegar perto, é cenário diário de violência social, militar e psicológica. Todas as manhãs, milhares de trabalhadores desafiam as estatísticas e saem para mais uma rotina diária esperando voltar para casa sãos e salvos para jantar com a família e dormir o sono tão merecido. Crianças brincam entre os sons das balas e desviam de um pelotão militar empunhando metralhadoras. Os desafios de viver numa cidade em guerra não tem limites.

Outras pessoas, fecham os olhos para tudo ou abrem apenas para o que interessa. A violência é um absurdo, esses traficantes, a polícia faz o que pode, a droga acaba com muitas vidas, veja você, até uma vizinha da minha irmã morreu com uma bala perdida, isso tem que mudar, mas é pena que esses políticos não fazem nada. Que coisa.

Algumas outras pessoas, desafiando clichês, chutando portas, gritando mais forte, destruindo frases feitas, conversando, ouvindo, resolvem atravessar todas as dificuldades e dar corpo e voz aos anônimos e silenciosos. Levantar da cadeira, ir até à frente, pegar o microfone, e falar. Falar por quem não fala, Ser por quem não existe nos olhos do poder.

Não é uma tarefa fácil. A sociedade estabelecida fecha portas, passa a perna, rouba a voz e tenta colocar essas pessoas “no seu lugar”. Lugar este escolhido por outros, uma gaiola invisível, fechada pelo descaso e pelo esquecimento.

Marielle Franco, mulher, negra, mãe, feminista, socióloga, militante dos direitos humanos, vereadora representante de mais de 46 mil cariocas e, como ela própria se definia, “cria da favela da Maré”, foi mais longe. Nas suas funções de vereadora do RJ usou mais do que a sua experiência, usou da sua existência para reclamar e colocar os holofotes onde eles nunca estão.

Que os milhares de anônimos silenciosos encontrem força na transformação e que os protestos de indignação, também dos privilegiados, sejam a alavanca para dar cara e vida à uma existência ignorada. As comunidades do Rio de Janeiro e de todo o Brasil precisam de mais do que velas, luto e justiça. Elas se cansaram de esperar e de esperança. Elas precisam de raiva, de luta e de revolta, que fazem silêncios serem ouvidos.

5 lugares para se proteger do frio em Paris

No inverno parisiense, às vezes é difícil ficar passeando muito tempo na rua sem congelar. Mesmo sem neve, as temperaturas às vezes podem chegar aos 10 graus negativos e, com o vento, a sensação térmica pode ser ainda pior. Nessa situação, a melhor estratégia é entrar em locais quentes de vez em quando para aquecer e retomar as forças para mais caminhada lá fora. Escolhi cinco lugares para ir em Paris e esquentar as orelhas, as mãos e o espírito. Mas atenção: tente usar os guarda-volumes dos museus porque os espaços fechados aqui são muito quentes e ficar assando com casaco e cachecol não é muito agradável.

Museu do Louvre

Não tem como não falar no Louvre, símbolo da riquíssima cultura e história francesa. Para os visitantes de primeira viagem, prepare-se antes escolhendo as obras que quer ver, senão vai ser só a frustração de não ter conseguido ver tudo. Se quiser dar um olá para a Mona Lisa ou a Vênus de Milo, basta olhar para as indicações do museu ou seguir a horda de turistas. No total são 35 mil obras compreendidas entre a Idade Média e 1848. De vez em quando, não se esqueça de olhar pelas janelas do museu para ver a cidade de diversos pontos de vista e, quando estiver do lado de fora, entrar nas galerias formadas pelo desenho  dos arcos do museu e contemplar um pouco de calma em plena Paris.

Segunda, quinta, sábado e domingo, 9h-17h45 ; quarta e sexta, 9h-21h45 (vale a pena para ver o museu à noite)
Métro – Palais Royal – Musée du Louvre
Bus – 21, 24, 27, 39, 48, 68, 69, 72, 76, 81, 95

Notre-Dame

O monumento mais visitado da França não é a torre Eiffel, mas sim a Catedral de Notre-Dame. Situado em pleno centro de Paris, ela é um símbolo da arquitetura gótica e  foi eternizada pelo escritor Victor Hugo. A catedral foi bastante castigada pela Revolução Francesa e restaurada drasticamente no século XIX e agora ela parece mais branca do que quando foi construída. Como curiosidade, saiba que todas as distâncias francesas de Paris são calculadas à partir de Notre-Dame. A visita é gratuita, com exceção das torres que tem bilheteria no local. Para os visitantes mais religiosos, a dificuldade pode ser conseguir se concentrar no meio de tantos turistas, flashes, selfie-sticks e guias.

Todos os dias das 8h às 18h45
Metro – Cité
RER – Saint-Michel – Notre-Dame
Bus – 21, 24, 27, 38, 47, 85, 96

Sacré-Coeur

Se você quiser ter uma  vista espetacular de Paris e visitar um dos locais mais conhecidos da cidade, vá até a colina de Montmarte, localizada a 130 metros de altura em plena capital e visite a Basílica de Sacré-Coeur. O edifício, de estilo neo-bizantino é belíssimo por dentro e por fora e, para os mais corajosos, subir os 300 degraus até o topo da cúpula pode ser uma garantia de falta de fôlego, pelo cansaço ou pelo visual. Para chegar lá até a Sacré-Coeur, podemos ir subindo as ruas acidentadas do bairro e curtir o ambiente ou se o frio estiver bravo, use o funicular e guarde forças para o resto da visita.

Todos os dias entre às 6h-22h30
Metro – Anvers e Abbesses

Passagens cobertas

Já escrevi uma vez sobre as passagens e galerias cobertas de Paris para a revista Viagem e Turismo, mas vale a pena relembrar, porque infelizmente elas são um passeio ignorado por boa parte das pessoas. As passagens são galerias que atravessam prédios e que ligam duas ruas. Nelas existem lojas, restaurantes, museus e hotéis e cada uma delas tem uma beleza diferente. Foram criadas para que os pedestres pudessem passear longe da confusão das ruas malcheirosas e sujas de Paris antes da remodelação feita pelo Barão de Haussman no século XIX. Muitas dessas galerias desapareceram, outras foram remodeladas e, mesmo não sendo tão quentes quanto um edifício fechado, continuam sendo uma boa opção para fugir do vento e da chuva. O ótimo blog Conexão Paris fez um texto sobre as melhores passagens cobertas de Paris.

Museu d’Orsay

Localizado numa antiga estação de trem inaugurada para a Exposição Mundial de Paris em 1900, o Museu d’Orsay apresenta obras produzidas entre 1848 e 1914 e é um local muito agradável para visitar. Tem o charme de toda estação de trem antiga e uma notável coleção de pinturas, esculturas, além de artes decorativas, fotografia e arquitetura. Desde 2011 o café do museu, localizado próximo do famoso relógio teve o seu design entregue aos brasileiros irmãos Campana. Não se esqueça de visitar a varanda do museu para ter uma linda visita sobre Paris.

Terça a domingo, 9h30-18h. Quinta 9h-21h45.
Metro – Solférino

RER – Musée d’Orsay

Bus – 24, 63, 68, 69, 73, 83, 84, 94