Marine Le Pen – Crônica de um sucesso temido e anunciado

“Bravo Marine, mas ainda falta fazer o mais difícil”.

Essa foi a mensagem enviada por Jean-Marie Le Pen à sua filha, Marine, na noite das eleições francesas no último domingo. Ela não respondeu, mas não deve ter deixado de reparar no “mas”. De fato, o Front National (FN) foi longe e está mais uma vez no segundo turno das eleições presidenciais francesas, mas a tarefa que tem pela frente é complicada.

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Imagem: Rémi Noyon

Marine Le Pen é advogada, filiada ao FN desde 1986 e ingressou no departamento jurídico do partido dois anos depois. Conselheira Regional da região de Île-de-France em 1998 e em seguida da região de Nord Pas-de-Calais, é deputada europeia desde 2004. Le Pen foi eleita presidente do FN em 2011, sucedendo ao seu pai que dirigia o partido desde a sua fundação. Em 2012 foi candidata às eleições presidenciais, ficando em terceiro lugar com 17.9% dos votos.

Se seu pai, Jean-Marie, é conhecido mundialmente pelas suas opiniões racistas e xenófobas, Marine soube, ao longo dos anos, retirar a carga negativa do seu partido e diluir a mensagem de extrema-direita em uma dose de comunicação e marketing.

Após uma declaração de seu pai afirmando que as câmaras de gás da Segunda Guerra Mundial foram um “detalhe”, Marine submete ao partido uma votação interna para excluir seu pai do cargo de presidente de honra do FN. Depois de uma série de pedidos jurídicos internos tentando anular a decisão, Jean-Marie Le Pen foi afastado de todas as funções do partido em 2015.

Foi a jogada de mestre de Marine que, juntamente com Florian Philippot, deram os moldes do Front National que conhecemos hoje em dia, com uma comunicação mais centrada em medidas sociais e econômicas e menos relacionada diretamente com a imigração. Philippot, aliás, ingressou no partido em 2011 do qual é vice-presidente desde 2012 e deputado europeu desde 2014.

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Desempenho de cada candidato por região. Fonte: Ministère de l’Intérieur

Crescimento do FN

A Europa é, aliás, um assunto polêmico para o FN. Defensora da saída da França do Tratado de Schengen, do fechamento das fronteiras e da renegociação dos tratados europeus, sob pena de recusá-los, Marine Le Pen é uma das dezenas de políticos do FN com assento no Parlamento Europeu e recentemente recusou devolver 300 mil euros pela contratação de uma funcionária fantasma como sua assessora em Bruxelas. Documentos divulgados pelo jornal Le Monde mostram, inclusive, que o FN teria usado fundos europeus para financiar a atividade do partido na França.

Em 2012, a família Le Pen assistiu ao surgimento de outra estrela do clã, Marion Marechal Le Pen, que foi eleita à Assembleia Nacional francesa, sendo, aos 22 anos, a mais jovem deputada da história da França. Marion é neta de Jean-Marie e sobrinha de Marine e prova que apesar do partido ser uma instituição política tradicional, não deixa de guardar as características de um grande feudo Le Pen.

Estratégia

Para as eleições deste ano, Marine Le Pen mudou de mensagem. Em 2012, tinha como slogan “Uma França tranquila”. Em 2017, se recandidatou com o slogan “Recolocar a França em ordem” e “Em nome do povo”. Em época de ameaças terroristas e depois de um mandato medíocre de François Hollande, Le Pen parece ter encontrado a afinação dos instrumentos de campanha para conseguir fazer passar a sua mensagem como uma música.

Antes, o partido exclamava “fora, estrangeiros”, agora pede a “prioridade para os franceses”. Pode parecer idêntico, mas no nível semântico faz toda a diferença para o eleitorado francês. A fala estava na exclusão, agora está na inclusão. O detalhe que não deveria ser detalhe é que ela continua deixando as mesmas pessoas de fora. Ela consegue até mesmo angariar votos entre comunidades de imigrantes, geralmente alvos de críticas do próprio FN.

O dia D

No dia 7 de maio, os franceses enfrentarão mais um desafio. O mundo olha para o país com uma expressão de desconfiança e de medo, a mesma que olhou para os Estados Unidos de Trump e para o Reino Unido do Brexit. No entanto, o cenário francês tem tudo para ser diferente.

Como nas eleições presidenciais de 2002 (quando Jean-Marie Le Pen passou ao segundo turno junto com Jacques Chirac), os partidos tradicionais pretendem fazer o que os franceses chamam de “barragem republicana”, ou seja, recomendar o voto no adversário do FN independentemente das afinidades políticas com o partido que concorrer com o partido de Le Pen. Desse modo, entre os primeiros colocados no primeiro turno, o Partido Socialista (centro-esquerda) já recomendou o voto em Emmanuel Macron, os Republicanos (centro-direita) fizeram o mesmo e apenas Jean-Luc Mélenchon (esquerda) não deu indicações de voto.

Marine Le Pen e Florian Philippot já começaram a arregaçar as mangas para a recolha dos votos dos perdedores. O FN quer apostar no sentimento anti europeu e anti sistema dos eleitores de Mélenchon e nos valores da direita dos eleitores de François Fillon, respectivamente terceiro e segundo colocados na votação do último domingo. Além disso, Marine vai atacar a herança socialista de Macron, que foi ministro da Economia do impopular presidente François Hollande.

Outro fator importante para o turno decisivo: a votação vai ocorrer durante um final de semana prolongado, no dia 7 de maio, um domingo, véspera do feriado de 8 de maio, o que pode aumentar a abstenção num país onde o voto não é obrigatório. O feriado comemora a vitória dos aliados na Segunda Guerra Mundial, conhecido como dia da Vitória ou dia da Europa.

Ironicamente, as eleições francesas colocam frente à frente Emmanuel Macron, um grande defensor da União Europeia, e Marine Le Pen, uma das suas maiores críticas. Resta apenas saber quem vai comemorar a vitória no dia da Europa na manhã seguinte.

 

 

 

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