Trump reclamão

Depois de alguma observação, percebi que quase todos os tweets do presidente norte-americano, Donald Trump, pela sua simplicidade de vocabulário e tom reclamão, poderiam ser de um filho chateado com o tratamento da mãe ou do pai. Aqui vão alguns exemplos alterando, obviamente, o tema do tweet mas mantendo a expressão de espanto e exclamação:

Papai tá decadente

Papai teve que pedir desculpas por ter sido malvado comigo naquele dia. Agora ele tá fazendo pior ainda!

Tá todo mundo errado

Tudo o que a mamãe contou de mim é mentira, igualzinho o que a titia, a professora e o Juquinha contaram. Todo mundo sabe que pintar as paredes é legal.

Mauzão está feliz

Mamãe convidou o meu vizinho para vir brincar e ele não sabe brincar, ele é mau. Pessoas más como ele ficam felizes com isso.

Papai continua decadente e perdido

Depois do papai ter sido obrigado a pedir desculpas pra mim por ser tão malvado, o papai, esse MENTIROSO continua perdidão!

Minha mãe é que sabe

Esse pessoal que fala que eu puxo rabo de gato só prova que minha mãe tá certa e que eu sou o melhor menino do mundo.

Amigo é amigo

Parabéns para o meu amigo Chiquinho por ter contado tantas coisas legais de mim. Ele é muito mais melhor que o MENTIROSO do meu pai que só conta mentiras – todo mundo sabe!

Exagero

Mamãe, eu só comi dois brigadeiros na festa. Todos os outros 450 quem comeu foi o canário que teve uma vontade repentina de participar na minha festa…

Feio, bobo e mau

Todo mundo discutindo se eu mandei ou não todo mundo que estava brincando pra fora do meu quarto. Chamem como quiser mas eu quero que meu amigos bobos (que fazem coisas bobas) fora daqui!

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Fronteiras

Querem fechar as fronteiras para os muçulmanos porque são terroristas.

Querem fechar as fronteiras para os negros porque são a maior população prisional americana.

Querem fechar as fronteiras para os desempregados porque vão roubar nosso emprego.

Querem fechar as fronteiras para os famintos porque vão comer nosso pão.

Querem fechar as fronteiras para os desesperados porque vão trazer desalento para o nosso povo.

Querem fechar as fronteiras para os cansados porque vão segurar nosso progresso.

Querem fechar as fronteiras para os pobres porque vão roubar nossa riqueza.

Querem fechar as fronteiras para os que sonham em respirar liberdade porque vão tirar nosso ar.

Querem fechar as fronteiras para os desabrigados porque vão roubar nossas casas.

Querem fechar as fronteiras para todos que representem uma ameaça.

E quando tudo estiver fechado, veremos que estamos trancados sozinhos com a nossa própria desumanidade.

O homem sem opinião

Não sabe ou não opina. Passou a ser o seu lema de vida. Deixou de responder pesquisas, enquetes, questionários, tudo que implicasse ter uma posição. “É a favor ou contra o uso de armas?”, “Em quem votaria para presidente?”, “Qual é a sua opinião sobre a corrupção?”. Para todas essas perguntas ele passou a ter a mesma resposta: não sei, não tenho opinião.

No princípio ficou meio confuso. Afinal, declarar que não tinha conhecimento sobre um tema que no fundo dominava poderia ser encarado como desonestidade intelectual. Depois, a sensação foi passando. Na sua conta no Facebook, onde ele diariamente dava a sua opinião em assuntos que iam da política econômica nacional à situação na Síria, passando sobre o que achava da utilização de coentro nos pratos de peixe, começou a adotar essa estratégia. Num longo texto na rede social sobre o posicionamento da Europa na crise dos refugiados, usou a caixa de comentários para escrever: “Não sei”. Numa outra postagem do Facebook sobre as declarações polêmicas de Trump declarou: “Não opino”.

Começou a variar os seus comentários entre essas duas respostas; por vezes combinava as duas: “não sei, prefiro não opinar”. Quando insistiam, ele era mais claro, mas sempre educado: “não tenho conhecimento para dar uma opinião embasada”.

O Facebook, lugar que sobrevive graças à vontade que temos em dar palpite na vida alheia, começou a tomar uma outra forma na sua vida. Acabaram-se as discussões nas caixas de comentários, fim das tretas em família sobre as eleições, uma nova era de paz e amor tomou conta da sua relação com o teclado. A sua decisão deixou de ser uma estratégia de internet e passou a ser uma filosofia de vida. Passou a fazer postagens periódicas no Twitter e nos grupos de Whatsapp pela manhã: “Bom dia amigos! Hoje não sei de nada!” ou “Amanheci sem opinião, bom resto de dia para todos”. E para sua própria surpresa, começou a ter mais “likes” na sua não-opinião do que quando gastava horas defendendo o seu ponto de vista.

Nas reuniões de condomínio, que frequentava assiduamente, passou a repetir o mesmo discurso. Os seus vizinhos no começo estranharam e depois começaram a repetir a tática. As reuniões, antes intermináveis, começaram a acabar cada vez mais cedo. Ele estava cada vez mais feliz. Um peso saiu da sua cabeça.

No Natal, não deu nenhuma opinião sobre o assado. Não tinha resposta a dar sobre o que achava da nova cor do cabelo da sua mulher. Quando o empregado da loja perguntou se o casaco que comprara era para presente, também disse que não sabia. “Quer mais suco?”, “Quantos gramas de queijo?”, “Vamos de férias para a praia?”, “O que é que vamos fazer com o 13o salário?”. Várias perguntas, nenhuma resposta.

De repente, começou a perder o controle da sua vida. Ninguém perguntava mais o que queria ou o que achava das coisas. Tudo era decidido sem que a sua opinião fosse ouvida, simplesmente porque todos sabiam que ele não tinha nenhuma. Às vezes, mesmo sem dizer nada, conseguia o que queria por mero acaso, quando a opinião geral coincidia com o que realmente desejava.

Desconfortável e perdido, fugiu de casa, abandonou sociedade, mulher, filhos, foi viver sozinho no meio do mato, porque foi o lugar que chegou indo em linha reta sem se perguntar para onde deveria virar. Pelo menos lá não tinha que responder à ninguém. Nunca mais foi visto, dizem que morreu de fome ou de dúvida, afogado nas sua opiniões e valores. Afinal, mesmo sozinhos, o consciente e o subconsciente não se calam jamais.