Dois candidatos, duas imagens

Uma imagem vale por mil palavras. O clichê pode ser exagerado mas a política vive de mil palavras e de mil imagens para conseguir passar a sua mensagem. Na semana entre os dois turnos das eleições francesas, decidi fazer uma pequena análise dos cartazes dos dois candidatos à presidência, Emmanuel Macron e Marine Le Pen.

Marine Le Pen

Tract de Marine Le Pen - Remettre la France en ordre 1

Nos cartazes para o primeiro turno, a propaganda da candidata do Front National (FN) era sóbria, com as cores típicas do slogan Bleu Marine (azul marinho) em fundo cinzento. A candidata sorri, com um toque de esperança mas não como quem goza da realidade. A sobriedade da roupa, preta com destaques brilhantes, concentra a atenção no rosto de Marine Le Pen. No alto, as palavras “Recolocar a França em ordem” dão o mote da campanha e um objetivo para a aspirante à presidência, com o adendo do “em 5 anos”. No canto inferior direito, uma rosa azul, escolhida por Le Pen para simbolizar, segundo a própria, a feminilidade e a esperança. Mas não deixa de ser uma ironia ter a rosa (símbolo do partido socialista) e a cor azul (cor do partido dos republicanos), dois lados que brigam desde sempre pelo poder na França. Abaixo da Rosa, a frase “Marine Presidente”: em nenhum momento o nome Le Pen aparece, muito menos o do partido Front National.

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Nos cartazes para o segundo turno, o FN apostou numa foto mais presidencial e lembra a foto oficial do ex-presidente Nicolas Sarkozy. Para evitar mais semelhanças, não há a bandeira francesa nem a bandeira da União Europeia, já que a Europa não faz parte das prioridades da candidata do FN. Marine Le Pen veste azul, como a cor do seu slogan e tem uma estante de livros ao fundo. A madeira predomina, acentuando a tradição e caráter oficial, mas ao mesmo tempo Marine aparece sentada de maneira informal em cima da mesa. Mais uma vez, os nomes Front National e Le Pen não fazem parte do cartaz. A frase “Escolher a França” é sóbria e relembra a política de preferência nacional que faz parte de todo o discurso de sua campanha.

Emmanuel Macron

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O candidato do movimento En Marche (EM) também tem versões diferentes para cada turno das eleições. No primeiro, Macron aparecia vestido em tons de azul, em primeiro plano, sem sorrir, mas com um semblante otimista. Ao fundo, pessoas o acompanham ou o seguem, mas não há rostos nítidos, apenas vultos fora de foco, colocando o destaque no candidato. Ele está no mesmo nível das pessoas, liderando-as. Não se distingue o cenário, mas parece ser um meio urbano, com prédios e árvores. Como no seu movimento, Macron aparece centrado no cartaz. Abaixo, as datas das eleições, como um lembrete para evitar uma eventual abstenção que favoreceria Marine Le Pen e a frase: “A França deve ser uma oportunidade para todos”. O uso do verbo “dever” coloca a ênfase no projeto do candidato do En Marche. Como se Macron dissesse: “Não o é ainda, mas deve ser”. A frase está entre aspas, o que ressalta que não é apenas uma frase de efeito, é uma frase retirada do próprio discurso do candidato centrista.

No segundo cartaz, temos apenas Macron, sempre ao centro, com uma expressão semelhante ao primeiro, o olhar fixo na câmera, o mesmo terno, a mesma camisa, a mesma gravata da primeira foto. A imagem é quase uma foto de identidade, como se Macron quisesse ligar a sua própria existência à identidade do seu país. Abaixo do seu rosto, a frase: “Juntos, França!”, um apelo à unidade nacional e terminando com um ponto de exclamação que acentua ainda mais o chamado. Agora temos o nome e o sobrenome de Macron e mais uma vez as datas das eleições para relembrar os mais distraídos.

 

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Marine Le Pen – Crônica de um sucesso temido e anunciado

“Bravo Marine, mas ainda falta fazer o mais difícil”.

Essa foi a mensagem enviada por Jean-Marie Le Pen à sua filha, Marine, na noite das eleições francesas no último domingo. Ela não respondeu, mas não deve ter deixado de reparar no “mas”. De fato, o Front National (FN) foi longe e está mais uma vez no segundo turno das eleições presidenciais francesas, mas a tarefa que tem pela frente é complicada.

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Imagem: Rémi Noyon

Marine Le Pen é advogada, filiada ao FN desde 1986 e ingressou no departamento jurídico do partido dois anos depois. Conselheira Regional da região de Île-de-France em 1998 e em seguida da região de Nord Pas-de-Calais, é deputada europeia desde 2004. Le Pen foi eleita presidente do FN em 2011, sucedendo ao seu pai que dirigia o partido desde a sua fundação. Em 2012 foi candidata às eleições presidenciais, ficando em terceiro lugar com 17.9% dos votos.

Se seu pai, Jean-Marie, é conhecido mundialmente pelas suas opiniões racistas e xenófobas, Marine soube, ao longo dos anos, retirar a carga negativa do seu partido e diluir a mensagem de extrema-direita em uma dose de comunicação e marketing.

Após uma declaração de seu pai afirmando que as câmaras de gás da Segunda Guerra Mundial foram um “detalhe”, Marine submete ao partido uma votação interna para excluir seu pai do cargo de presidente de honra do FN. Depois de uma série de pedidos jurídicos internos tentando anular a decisão, Jean-Marie Le Pen foi afastado de todas as funções do partido em 2015.

Foi a jogada de mestre de Marine que, juntamente com Florian Philippot, deram os moldes do Front National que conhecemos hoje em dia, com uma comunicação mais centrada em medidas sociais e econômicas e menos relacionada diretamente com a imigração. Philippot, aliás, ingressou no partido em 2011 do qual é vice-presidente desde 2012 e deputado europeu desde 2014.

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Desempenho de cada candidato por região. Fonte: Ministère de l’Intérieur

Crescimento do FN

A Europa é, aliás, um assunto polêmico para o FN. Defensora da saída da França do Tratado de Schengen, do fechamento das fronteiras e da renegociação dos tratados europeus, sob pena de recusá-los, Marine Le Pen é uma das dezenas de políticos do FN com assento no Parlamento Europeu e recentemente recusou devolver 300 mil euros pela contratação de uma funcionária fantasma como sua assessora em Bruxelas. Documentos divulgados pelo jornal Le Monde mostram, inclusive, que o FN teria usado fundos europeus para financiar a atividade do partido na França.

Em 2012, a família Le Pen assistiu ao surgimento de outra estrela do clã, Marion Marechal Le Pen, que foi eleita à Assembleia Nacional francesa, sendo, aos 22 anos, a mais jovem deputada da história da França. Marion é neta de Jean-Marie e sobrinha de Marine e prova que apesar do partido ser uma instituição política tradicional, não deixa de guardar as características de um grande feudo Le Pen.

Estratégia

Para as eleições deste ano, Marine Le Pen mudou de mensagem. Em 2012, tinha como slogan “Uma França tranquila”. Em 2017, se recandidatou com o slogan “Recolocar a França em ordem” e “Em nome do povo”. Em época de ameaças terroristas e depois de um mandato medíocre de François Hollande, Le Pen parece ter encontrado a afinação dos instrumentos de campanha para conseguir fazer passar a sua mensagem como uma música.

Antes, o partido exclamava “fora, estrangeiros”, agora pede a “prioridade para os franceses”. Pode parecer idêntico, mas no nível semântico faz toda a diferença para o eleitorado francês. A fala estava na exclusão, agora está na inclusão. O detalhe que não deveria ser detalhe é que ela continua deixando as mesmas pessoas de fora. Ela consegue até mesmo angariar votos entre comunidades de imigrantes, geralmente alvos de críticas do próprio FN.

O dia D

No dia 7 de maio, os franceses enfrentarão mais um desafio. O mundo olha para o país com uma expressão de desconfiança e de medo, a mesma que olhou para os Estados Unidos de Trump e para o Reino Unido do Brexit. No entanto, o cenário francês tem tudo para ser diferente.

Como nas eleições presidenciais de 2002 (quando Jean-Marie Le Pen passou ao segundo turno junto com Jacques Chirac), os partidos tradicionais pretendem fazer o que os franceses chamam de “barragem republicana”, ou seja, recomendar o voto no adversário do FN independentemente das afinidades políticas com o partido que concorrer com o partido de Le Pen. Desse modo, entre os primeiros colocados no primeiro turno, o Partido Socialista (centro-esquerda) já recomendou o voto em Emmanuel Macron, os Republicanos (centro-direita) fizeram o mesmo e apenas Jean-Luc Mélenchon (esquerda) não deu indicações de voto.

Marine Le Pen e Florian Philippot já começaram a arregaçar as mangas para a recolha dos votos dos perdedores. O FN quer apostar no sentimento anti europeu e anti sistema dos eleitores de Mélenchon e nos valores da direita dos eleitores de François Fillon, respectivamente terceiro e segundo colocados na votação do último domingo. Além disso, Marine vai atacar a herança socialista de Macron, que foi ministro da Economia do impopular presidente François Hollande.

Outro fator importante para o turno decisivo: a votação vai ocorrer durante um final de semana prolongado, no dia 7 de maio, um domingo, véspera do feriado de 8 de maio, o que pode aumentar a abstenção num país onde o voto não é obrigatório. O feriado comemora a vitória dos aliados na Segunda Guerra Mundial, conhecido como dia da Vitória ou dia da Europa.

Ironicamente, as eleições francesas colocam frente à frente Emmanuel Macron, um grande defensor da União Europeia, e Marine Le Pen, uma das suas maiores críticas. Resta apenas saber quem vai comemorar a vitória no dia da Europa na manhã seguinte.

 

 

 

Stevie Wonder – Living for the City

Em 1974, Stevie Wonder tocou no Musikladen, um programa de televisão da então Alemanha Ocidental para promover o seu álbum mais recente, o genial “Innervisions”, lançado no ano anterior. Foram 30 minutos da melhor qualidade musical e uma banda enxuta mas dona do próprio som. O guitarrista e tecladista, Michael Sembello, tinha apenas 20 anos nesse vídeo e já tocava com Stevie há 3 anos. Segue a composição da banda:
 
Denise Williams – vocais
Lani Groves – vocais
Shirley Brewer – vocais
Ollie Brown – bateria
Mike Sembello – guitarra
Marlo Henderson – guitarra
Reggie McBride -baixo
Living for the City
 
A boy is born in hard time Mississippi
Surrounded by four walls that aint so pretty
His parents give him love and affection
To keep him strong moving in the right direction
Living just enough, just enough for the city!
 
His father works some days for fourteen hours
And you can bet he barely makes a dollar
His mother goes to scrub the floors for many
And you’d best believe she hardly gets a penny
Living just enough, just enough for the city!
 
His sisters black but she is shonuff pretty
Her skirt is short but lord her legs are sturdy
To walk to school she’s got to get up early
Her clothes are old but never are they dirty
Living just enough, just enough for the city!
 
Her brothers smart he’s got more sense than many
His patiences long but soon he wont have any
To find a job is like a haystack needle
Cause where he lives they dont use colored people
Living just enough, just enough for the city!

Trump reclamão

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Imagem: Shawn Campbell

Depois de alguma observação, percebi que quase todos os tweets do presidente norte-americano, Donald Trump, pela sua simplicidade de vocabulário e tom reclamão, poderiam ser de um filho chateado com o tratamento da mãe ou do pai. Aqui vão alguns exemplos alterando, obviamente, o tema do tweet mas mantendo a expressão de espanto e exclamação:

Papai tá decadente

Papai teve que pedir desculpas por ter sido malvado comigo naquele dia. Agora ele tá fazendo pior ainda!

Tá todo mundo errado

Tudo o que a mamãe contou de mim é mentira, igualzinho o que a titia, a professora e o Juquinha contaram. Todo mundo sabe que pintar as paredes é legal.

Mauzão está feliz

Mamãe convidou o meu vizinho para vir brincar e ele não sabe brincar, ele é mau. Pessoas más como ele ficam felizes com isso.

Papai continua decadente e perdido

Depois do papai ter sido obrigado a pedir desculpas pra mim por ser tão malvado, o papai, esse MENTIROSO continua perdidão!

Minha mãe é que sabe

Esse pessoal que fala que eu puxo rabo de gato só prova que minha mãe tá certa e que eu sou o melhor menino do mundo.

Amigo é amigo

Parabéns para o meu amigo Chiquinho por ter contado tantas coisas legais de mim. Ele é muito mais melhor que o MENTIROSO do meu pai que só conta mentiras – todo mundo sabe!

Exagero

Mamãe, eu só comi dois brigadeiros na festa. Todos os outros 450 quem comeu foi o canário que teve uma vontade repentina de participar na minha festa…

Feio, bobo e mau

Todo mundo discutindo se eu mandei ou não todo mundo que estava brincando pra fora do meu quarto. Chamem como quiser mas eu quero que meu amigos bobos (que fazem coisas bobas) fora daqui!

Dicas da sexta – Pac-Man, Pessoa e Karol Conka

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Esporte: A agonia de um lutador de MMA antes da luta

“A desidratação é a pior parte do processo, mas o carro é a pior parte da desidratação”. A frase é Magno Wilson, treinador de Acácio “Pequeno” dos Santos, lutador de MMA, referindo-se à técnica improvisada de fazer o atleta brasileiro transpirar dentro de um carro quente para perder peso antes de uma luta. Texto de Adriano Wilkson para o UOL.

Justiça: Perfil do juiz que mandou milionários e políticos brasileiros para a prisão

Com a evolução da operação Lava Jato, os juízes tem tido um destaque fora do comum. Marcelo Bretas foi o juiz que ordenou as prisões do empresário Eike Batista e do ex-governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral. Texto de Júlia Carneiro para a BBC Brasil.

Literatura: 49 lições de vida de Fernando Pessoa

O escritor português escreveu sobre quase tudo. Muita coisa não foi publicada com o mesmo destaque dos poemas mais conhecidos. A editora Tinta-da-China publica Como Fernando Pessoa pode mudar a sua vida, uma coleção de textos realizada por Carlos Pitella e Jerônimo Pizarro. Sobre o bigode de Hitler, Pessoa escreveu: “Hitler. His very moustache is pathological. Lack of sense of humour”.

Mundo: Inside the brutal battle for Mosul (em inglês)

A rede pública norte-americana PBS em parceria com os ingleses do The Guardian realizaram uma série de reportagens sobre a tomada da cidade de Mossul, no Iraque. Destaque para a ótima reportagem do jornalista iraquiano Ghaith Abdul-Ahadum, filmada com câmeras de 360 graus, onde o espectador tem uma visão impressionante da realidade da cidade.

Games: Entrevista de 2015 com o inventor do Pac-Man (em inglês)

O criador de um dos jogos mais conhecidos da história do video-game faleceu esta semana. Toru Iwatani deu uma entrevista para a revista Time em 2015 e explicou como viu o personagem numa fatia de pizza.

Música: Teaser de Farofei, de Karol Conka

O clip do novo single de Karol Conka foi filmado no Japão e dirigido por KondZilla, em mais uma parceria dela com Boss in Drama. Faz parte do álbum Ambulante, a ser lançado ainda este ano.

Fronteiras

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Imagem: Ryan Godfrey

Querem fechar as fronteiras para os muçulmanos porque são terroristas.

Querem fechar as fronteiras para os negros porque são a maior população prisional americana.

Querem fechar as fronteiras para os desempregados porque vão roubar nosso emprego.

Querem fechar as fronteiras para os famintos porque vão comer nosso pão.

Querem fechar as fronteiras para os desesperados porque vão trazer desalento para o nosso povo.

Querem fechar as fronteiras para os cansados porque vão segurar nosso progresso.

Querem fechar as fronteiras para os pobres porque vão roubar nossa riqueza.

Querem fechar as fronteiras para os que sonham em respirar liberdade porque vão tirar nosso ar.

Querem fechar as fronteiras para os desabrigados porque vão roubar nossas casas.

Querem fechar as fronteiras para todos que representem uma ameaça.

E quando tudo estiver fechado, veremos que estamos trancados sozinhos com a nossa própria desumanidade.

O homem sem opinião

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Imagem: Colin Kinner

Não sabe ou não opina. Passou a ser o seu lema de vida. Deixou de responder pesquisas, enquetes, questionários, tudo que implicasse ter uma posição. “É a favor ou contra o uso de armas?”, “Em quem votaria para presidente?”, “Qual é a sua opinião sobre a corrupção?”. Para todas essas perguntas ele passou a ter a mesma resposta: não sei, não tenho opinião.

No princípio ficou meio confuso. Afinal, declarar que não tinha conhecimento sobre um tema que no fundo dominava poderia ser encarado como desonestidade intelectual. Depois, a sensação foi passando. Na sua conta no Facebook, onde ele diariamente dava a sua opinião em assuntos que iam da política econômica nacional à situação na Síria, passando sobre o que achava da utilização de coentro nos pratos de peixe, começou a adotar essa estratégia. Num longo texto na rede social sobre o posicionamento da Europa na crise dos refugiados, usou a caixa de comentários para escrever: “Não sei”. Numa outra postagem do Facebook sobre as declarações polêmicas de Trump declarou: “Não opino”.

Começou a variar os seus comentários entre essas duas respostas; por vezes combinava as duas: “não sei, prefiro não opinar”. Quando insistiam, ele era mais claro, mas sempre educado: “não tenho conhecimento para dar uma opinião embasada”.

O Facebook, lugar que sobrevive graças à vontade que temos em dar palpite na vida alheia, começou a tomar uma outra forma na sua vida. Acabaram-se as discussões nas caixas de comentários, fim das tretas em família sobre as eleições, uma nova era de paz e amor tomou conta da sua relação com o teclado. A sua decisão deixou de ser uma estratégia de internet e passou a ser uma filosofia de vida. Passou a fazer postagens periódicas no Twitter e nos grupos de Whatsapp pela manhã: “Bom dia amigos! Hoje não sei de nada!” ou “Amanheci sem opinião, bom resto de dia para todos”. E para sua própria surpresa, começou a ter mais “likes” na sua não-opinião do que quando gastava horas defendendo o seu ponto de vista.

Nas reuniões de condomínio, que frequentava assiduamente, passou a repetir o mesmo discurso. Os seus vizinhos no começo estranharam e depois começaram a repetir a tática. As reuniões, antes intermináveis, começaram a acabar cada vez mais cedo. Ele estava cada vez mais feliz. Um peso saiu da sua cabeça.

No Natal, não deu nenhuma opinião sobre o assado. Não tinha resposta a dar sobre o que achava da nova cor do cabelo da sua mulher. Quando o empregado da loja perguntou se o casaco que comprara era para presente, também disse que não sabia. “Quer mais suco?”, “Quantos gramas de queijo?”, “Vamos de férias para a praia?”, “O que é que vamos fazer com o 13o salário?”. Várias perguntas, nenhuma resposta.

De repente, começou a perder o controle da sua vida. Ninguém perguntava mais o que queria ou o que achava das coisas. Tudo era decidido sem que a sua opinião fosse ouvida, simplesmente porque todos sabiam que ele não tinha nenhuma. Às vezes, mesmo sem dizer nada, conseguia o que queria por mero acaso, quando a opinião geral coincidia com o que realmente desejava.

Desconfortável e perdido, fugiu de casa, abandonou sociedade, mulher, filhos, foi viver sozinho no meio do mato, porque foi o lugar que chegou indo em linha reta sem se perguntar para onde deveria virar. Pelo menos lá não tinha que responder à ninguém. Nunca mais foi visto, dizem que morreu de fome ou de dúvida, afogado nas sua opiniões e valores. Afinal, mesmo sozinhos, o consciente e o subconsciente não se calam jamais.